Histórias da CART 3503

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

sábado, 21 de janeiro de 2012 | 00:07

Bananeiras

As Águas - Mueda
Foto retirada daqui e posteriormente editada.

Dizia o Furriel Manuel Bastos, e digo eu, furriel na guerra, furriel para toda a vida, num seu recente texto, publicado no “site” Cacimbo, que “nunca regressamos de África”.
É verdade, de África e da Guerra, tomo a liberdade de acrescentar.
Precisamente, por estes dias finais de mais um ano, já lá vão 38, Mueda fervilhava de agitação, preparando um mega-almoço, especialmente abastecido por uma aeronave propositadamente contratada para o efeito, vinda de Nampula, bem carregada de comes e bebes, que reuniria no 1º dia do ano de 1974 as designadas figuras militares, politicas, sociais e religiosas, de Lourenço Marques e de Nampula.
Pretendia-se com a realização de tal evento mostrar ao mundo que Portugal estava bem presente naquelas paragens, ao contrário do que os jornais, estrangeiros, claro, noticiavam, acerca da luta travada no terreno.
Aproximava-se, pois, o fim do ano, com o Natal já passado, e eu ainda a recuperar do paludismo que me havia atirado para a cama uns dias antes da noite de consoada.
Felizmente, até então, não havíamos sofrido o sempre esperado ataque dos “terroristas”, o que fazia antever um possível bombardeamento pela entrada do novo ano, já que dificilmente escaparíamos á tradição das boas vindas que por esta altura do ano a FRELIMO sempre presenteava as forças portuguesas, naquelas paragens.
E, eis que, ainda abalado pela crise de paludismo, fui chamado ao comando, onde me foi comunicado que, uma vez que tinha já alta médica, fora nomeado, aliás, como a companhia 3503, para comandar uma coluna, responsável pela protecção a uma obra cometida à engenharia.
Exactamente, foi-me comunicado, melhor, ordenado, que a partida da coluna seria na manhã do dia 31, isto é, no último dia do ano.
A Cart 3503, além do capitão e responsável pela operação, forneceria um alferes, que calhou ser o Silvestre, dois ou três furriéis e uns vinte e poucos soldados. O restante pessoal seria da engenharia.
A Cart 3501, de Nancatary, enviaria ao nosso encontro um número idêntico de homens, que se juntariam a nós como reforço á operação com vista à construção de uma ponte, nas Bananeiras, assim se designava aquele local, no meio do mato, sobre um pequeno riacho, que substituiria uma outra há muito destruída pelos guerrilheiros e por onde era suposto passar uma coluna de abastecimento, vinda de Nampula.
A escolha do alferes Silvestre, pese a sua recente alta médica, decidida no Hospital de Nampula, culminando um processo de tratamento e recuperação demorado, após violentos ferimentos sofridos, que o colocaram às portas da morte, muitos meses antes, dizia, a sua escolha para me acompanhar resultou de uma pequena reunião entre nós os dois e o outro alferes da companhia, o Silva, por todos tratado por Silvita.
Face à necessidade de nomear um deles, vi-me perante um dilema, tomar uma decisão entre um, o Silvestre, que não se entendia como era possível, atento os graves ferimentos sofridos e o calvário que passou pelos hospitais, incluindo com evacuação para Portugal e, agora regressado ao mesmo teatro de guerra, por um lado e, por outro, o Silvita, que vinha, quase ininterruptamente, assegurando a realização das operações que a companhia era permanentemente obrigada a realizar, sem que estivesse dotada dos meios humanos mínimos para tal, não só de oficiais como de soldados.
Então passei-lhes “a bola” e eles que decidissem entre ambos qual seria o que me acompanharia na operação. De imediato, o Silvestre disse que teria de ser o capitão a escolher. Também, sem perda de tempo, decidi que seria ele próprio a participar na coluna.
Os demais militares que ficavam em Mueda, fossem os “aramistas”, ou o que restava dos atiradores, também decidiram que não participariam no previsto mega-almoço, e dessa forma solidarizavam-se com aqueles que partiam para o mato.
Para o efeito, de modo a evitar represálias, uns juntar-se-iam ao grupo de soldados que estacionavam no acampamento instalado no aldeamento, e os restantes iriam para as “Águas”, fora de Mueda, a uma meia dúzia de quilómetros, onde a companhia mantinha um grupo de quarenta militares, que assegurava o abastecimento de água a Mueda.
Com votos, em surdina, de que Mueda fosse atacada na nossa ausência, lá partimos para as Bananeiras. Berliets carregadas com os soldados e material necessário a uma estadia que se previa de vários dias, além de toda a maquinaria da engenharia.
Pequena paragem na picada, no desvio para as Águas, onde largámos dois graduados da companhia de engenharia que, por maldade, haviam sido integrados para realizar aquela operação, apesar de terem chegado a Mueda, vindos de Portugal, dois dias antes. Estavam assustados, como era normal, para quem pela primeira vez, e mal acabados de chegar, se viam numa situação daquelas. Entre risos e bocas foi-lhes explicado que não era mais que o cumprimento de uma, digamos, praxe, que em Mueda se fazia passar aos “chekas”.
Aliviados ficaram nas Águas e nós lá prosseguimos o nosso destino, agora com cautelas redobradas, picando os rodados por onde passariam as viaturas. E, deste modo, ao som dos motores das viaturas em marcha lenta, fomos percorrendo a picada que ligava Mueda a Nancatary, via Águas e Bananeiras.
Relativamente perto das Bananeiras deu-se o reencontro com os homens vindos de Nancatary. Assim, suspendemos a picagem, já que a picada acabara de ser passada pelos recém-chegados de Nancatary, e mais aceleradamente, já todos quantos iriam assegurar a construção da ponte, rolamos para o local determinado que uma vez atingido, e porque naquelas paragens anoitecia muito cedo, toca a derrubar umas quantas árvores, de modo a melhor instalar o acampamento, atentos todos os dispositivos de segurança.
A queda de uma das árvores acabou por despoletar um enxame de abelhas, que rapidamente se espalhou pelo local tomado pelos militares e começou a atacá-los. O alvoroço de todos e o pânico de muitos, recorrendo a granadas de fumo, às próprias viaturas com os canos de escape a exalar fumos, fugindo para as respectivas cabines ou lançando-se para debaixo das mesmas, foi a forma encontrada para combater um tal “ataque”.
Entre os vários militares picados pelas abelhas um teve mesmo de ser evacuado, atenta a gravidade do seu estado de saúde.
Socorrido por um heli que logo foi chamado de Mueda, o ferido foi evacuado. Logo à chegada, a primeira baixa.
Terminado o ataque das abelhas, que trouxera à memória uma situação semelhante aquando da passagem, exactamente, pelo mesmo local, da coluna que trouxera, em 1972, muitos daqueles homens para Mueda e onde sofreram logo, num ataque, também de abelhas, a evacuação do seu primeiro elemento, um dos alferes, que não voltou mais à companhia. Mau agoiro, pensaram muitos.
Agora, todos ao trabalho, na montagem e organização do acampamento, com especial incidência na manutenção da segurança, porque a tarde apressadamente ia desaparecendo e a noite, a “noite de fim de ano”, rapidamente se aproximava.
Instalados, caída a noite, foi impossível não recordar passagens de ano anteriores, sobretudo algures em Portugal. Os homens da 3503 que haviam carregado algumas bebidas recolhidas na árvore de Natal que tinham “plantado” na sua camarata, por todos fizeram uma distribuição para que ninguém ficasse sem brindar ao ano que nasceria à meia-noite.
Chovia torrencialmente quando bateu a meia-noite e, desde gritos e vivas, a tiros para o ar, enfim, um barulho em pleno mato, impossível de controlar, foi a forma que os militares estacionados nas Bananeiras encontraram para festejar a chegada do novo ano, aliás, que seria o último para os homens da duas companhias de atiradores ali presentes, as Cart´s 3501 e 3503, tirando um ou outro homem que havia chegado em rendição individual, caso do capitão e que ainda estava no princípio da sua comissão, enquanto os demais, sem contar com o mata-bicho, isto é, mais uns três meses, terminariam a comissão nos primeiros dias, exactamente, do mês de Janeiro que estava a nascer.
Assim adormeceram e devido à chuva que caía intensamente durante a noite, o capitão, como um ou outro militar, refugiou-se na cabine de uma das Berliets, onde acabou por adormecer, já bem bebido, confessa.
Manhã cedo, toca a levantar, uma vez que tudo estava devidamente previsto, os homens da Engenharia dirigiram-se para o local onde iriam edificar a nova ponte, melhor, montar um pontão, e os atiradores das 3101 e 3503, prepararam-se para assegurar a defesa do acampamento e a segurança dos trabalhos a executar pelos “engenheiros”.
O capitão, conforme havia já acordado com o alferes Silvestre, organizava um pequeno grupo para ir a Nancatary, sem avisar, de modo a surpreender o capitão Aveiro, com quem mantinha já fortes laços de solidariedade, e comandante das tropas aí estacionadas, para obter produtos que amenizassem as rações de combate que teriam de suportar durante, como era então previsível, mais de uma semana.
Faziam-se os derradeiros preparativos para a partida, quando um forte rebentamento, seguido de rajadas de armas automáticas, fez parar todos os homens do acampamento e, o capitão, menos apreensivo que ninguém, ainda um “cheka” relativamente aos demais militares que o acompanhavam, alvitrou para quem estava próximo:
- Olha o capitão Aveiro a receber as boas festas dos “turras”!
Um soldado a seu lado, um dos tais velhinhos da Cart 3503, prontamente lhe fez sentir:
- Meu capitão, olhe que não, este rebentamento aconteceu a menos de quinhentos metros daqui.
Instantaneamente reagimos e fizemos a aproximação ao local.
Era verdade, melhor, duas verdades, uma, as “boas festas” da Frelimo, eram uma amarga realidade que o capitão Aveiro e alguns dos seus homens acabavam de receber, e a outra, foi muito perto do acampamento que o ataque se registou.
O comandante da CART 3501 adiantou-se ao capitão da 3503 e, sem que fosse esperado, certamente para provocar uma agradável surpresa, vinha carregado com mantimentos, apoiar quantos se encontravam naquela missão.
Assim ficaram pelo caminho quatro rapazes, na casa dos vinte anos, e que terminariam a sua comissão de serviço, daí a alguns dias, se não tivessem sido abatidos.

Lisboa, final de 2011 e começo de 2012

António Pereira de Almeida, último capitão da CART 3503

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domingo, 11 de setembro de 2011 | 21:41

Crónica de uma operação falhada


Mueda, Moçambique. São quatro da manhã, terça-feira, dia 21 de Março de 1972. O Raimundo acorda, desliga rapidamente o despertador. Senta-se na cama e lentamente roda-se e coloca os pés no chão. Calmamente levanta-se vai até à casa de banho onde faz a sua higiene matinal e volta para o quarto e aproveita para chamar o Cristo, o Vences, o Ribeiro e o Ventura, dizendo-lhes que está na hora de por a pé. Na outra flat, àquela hora levantavam-se, igualmente, os Furriéis Caseiro, Silvita e Bastos.
Enquanto os colegas tratam da sua higiene matinal o Raimundo pega na sua mochila e confirma que está tudo em ordem. Pega depois no bornal donde retira uma embalagem de leite achocolatado e aproveita para tomar o seu pequeno-almoço composto desta embalagem de leite e de uma sandes de queijo. Queijo que ainda restava da remessa que tinha levado aquando do embarque em Lisboa em Janeiro. Após este repasto, olha minuciosamente os carregadores, repletos, mete-os nas cartucheiras que coloca à cintura, mochila às costas, bornal preso ao cinturão, tal como o cantil e G3 na mão. Diz até já aos seus camaradas, caminha em direção à Companhia, mais propriamente à caserna onde os soldados dos três pelotões se começavam a preparar para mais uma operação.
A operação em causa era nem mais nem menos do que o assalto à base Nampula e tinha como objectivo a captura dos morteiros que o In ali dispunha e com os quais fustigava inusitadamente as nossas tropas. Tinha sido no dia anterior cerca das quatro da tarde que o Capitão Azevedo tinha chamado o Raimundo ao seu gabinete em que lhe disse “amanhã vamos para uma operação de dois dias, vamos levar os homens disponíveis, pelo que chame todos os graduados dos 3 pelotões e encontramo-nos todos às cindo da tarde aqui. Entretanto, verifique na arrecadação com o Aníbal as rações de combate e ele que vá preparando as necessárias para distribuição”. Assim foi feito. O Raimundo tratou de passar a palavra aos outros furriéis para que estivessem no gabinete do Capitão às cinco e foi até à arrecadação dizer ao Aníbal que preparasse cerca de 200 rações de combate para distribuição depois do jantar.
A reunião em causa serviu para o Capitão fazer o ponto da situação e para atribuir tarefas sendo que cada um dos participantes conhecia perfeitamente o que tinha a fazer. Diga-se que por razões que a guerra ditou a Companhia apenas dispunha de três oficiais, o Capitão, o Alferes Silvestre e o Alferes Barreiros. Assim, tinha sido acordado que em cada operação que se desenrolasse apenas participaria um oficial, o qual seria coadjuvado pelos furriéis dos pelotões envolvidos em casa operação. Calhou desta vez a sorte ao Capitão Azevedo, o qual depois de explicados os contornos da operação e como presumivelmente se desenrolaria deu por encerrada a reunião sem que antes dissesse ao Furriel Raimundo para ficar porque necessitava de articular com eles alguns dos aspectos focados. Acontecia que o Furriel Raimundo era o mais antigo de todos os furriéis operacionais pelo que na presente operação seria ele o substituto do Comandante sendo necessário tomar conhecimento de todo o plano operacional para fazer face a qualquer eventualidade. Foi isso que aconteceu, tendo o Capitão explicado detalhadamente alguns pormenores que não tinham sido “públicos” na reunião.
Cerca das quatro e quarenta e cinco minutos da manhã, num breve encontro do Capitão e dos oito furriéis presentes recapitulou-se tudo o que era necessário fazer, após o que cada um dos furriéis se dirigiu ao seu grupo de combate tendo em vista a partida para a operação, sendo que a Companhia seria autotransportada cerca de cinco quilómetros. Tudo em ordem, viaturas prontas, pessoal acomodado nas berliets. Foi dada ordem de partida quando a manhã começava a raiar.
A viagem dos cerca de cinco quilómetros demorou cerca de meia hora, tendo terminado junto do antigo posto da água XXX, sendo o restante percurso feito a pé. Saltar das viaturas, ter cuidado onde pisar e preparar para a arrancada a qual iria ser feita pela mata já que não era seguro seguir picada. Toda a gente ainda tinha bem presente a mina que havia, cerca de 3 semanas antes, ali bem perto, ao lado daquela mesma picada, esfacelado o pé do Cabo Correia, pelo que o cuidado, a atenção e por que não dizê-lo a tensão eram evidentes. Cerca das seis da manhã, inicia-se a marcha pela mata, em fila de pirilau ou indiana como era hábito chamar-se, esticando ou encurtando consoante a fisionomia do terreno que palmilhavámos, com o pelotão do Furriel Raimundo à frente. A manhã estava fresquinha e o orvalho existente na vegetação ia penetrando pelo camuflado, mas o sol começava a raiar tornando aquela caminhada silenciosa em algo surreal, pois ninguém dizia fosse o que fosse, e a coluna movimenta-se como sombras ora mais rápida em campo aberto ora mais lenta em zona densamente arborizada ou com muito capim. Cerca das sete da manhã a coluna parou. Que aconteceu, perguntam lá de trás, nada, responde-se da cabeça da coluna, apenas temos um milheiral pela frente. O Tubarão, elemento que seguia na cabeça da coluna ao sair de uma zona arborizada depara-se com uma plantação de milho de grande extensão e parou. Chamou o Raimundo à frente o qual observou o milheiral que teria forçosamente mais de dois metros de altura e concluiu que o melhor para seguir em frente era atravessar a plantação, solução que foi aprovada pelo Capitão e a marcha seguiu. A companhia esteve toda dentro do milheiral e cerca de 100 homens em fila indiana ainda representam uns bons metros podendo-se aquilatar por aqui a extensão daquela plantação. À medida que iamos avançando no atravessamento do milheiral começamos a distinguir uns sons os quais estavam cada vez mais próximos e que eram nada mais nada menos do que vozes de homens conversando animadamente. Feita a respectiva transmissão para a traseira da coluna, no sentido de haver o máximo cuidado e evitar todo e qualquer barulho fomo-nos aproximando do fim do milheiral. Quando a cabeça da coluna aí chegou, Raimundo e Tubarão pararam, agacharam e mediram a envolvência. A mata desenrolava-se novamente a cerca de cinco-dez metros do fim da plantação do milho, pelo que haveria de se ter o maior cuidado na travessia do campo descoberto. À esquerda do local onde atingimos a orla do milheiral havia uma espécie de banca, com alguma dimensão, repleta de abóboras e outros produtos agrícolas que certamente estavam ali a secar. As vozes ouviam-se mais para a esquerda dessa banca, mas deveriam estar a uma distância relativamente curta tal a nitidez com que se chegavam até nós.
Com o máximo cuidado mas também com a rapidez possível numa situação daquelas embrenhamo-nos na mata tendo toda a coluna feito a transposição sem qualquer problema. As vozes iam agora desaparecendo aos poucos e poucos. E também pouco a pouco a companhia foi avançando na mata rumo ao objectivo. O sol começa a apertar e o ritmo da marcha abrandava um pouco. Perto da oito da manhã chegamos ao local onde em tempos, por altura da operação Nó Górdio, tinha estado estacionada uma bateria de artilharia, pelo que aproveitando o local, foi dada ordem de paragem para descansar. O pessoal espalhou-se pelo terreno, aproveitando os “buracos” dos obuses ou estendendo-se ao longo de um trilho que ali passava, e enquanto uns apenas descansavam outros comiam, outros dormiam ou pelo menos tentavam e outros ainda, escondendo-se nas traseiras de qualquer árvore ou arbusto ali existente satisfaziam as suas necessidades fisiológicas. O local onde tinham estacionado os obuses era, como não podia deixar de ser, uma clareira, onde apenas alguns arbustos e capim tinham crescido naquele espaço, pelo que dada a sua largueza foi aproveitado pelo Capitão e pelos furriéis para fazer uma breve “reunião” tendo em vista o ponto de situação, finda a qual cada um voltou à sua posição.
São cerca das dez da manhã. De repente ouve-se um burburinho e alguém grita “fogo”. Todo o mundo no chão, arma aperrada e toca a apertar o gatilho. A coisa durou alguns segundos até que alguém novamente grita “pára”. A guerra tinha parado. O Raimundo foi lá à frente saber o que tinha acontecido e pasme-se. Então mesmo ali ao nosso lado, no trilho que desembocava na clareira, à sombra duns arbustos, dormia um caçador, que ao despertar da sua soneca deparou com a rapaziada ali mesmo à sua beira e não olhando para trás iniciou uma corrida deixando ali a prova da sua presença, um saco feito de pele de um animal, possivelmente gazela, o seu arco e a sua flecha. Apesar do tiroteio que se desencadeou o caçador conseguiu escapar ileso. O Bastos, fez seu o material abandonado e treinou o tiro com arco.
Estávamos detetados quer pelo caçador quer pelo tiroteio. Havia que sair dali o mais rápido possível, tanto mais que o local estava certamente referenciado. Mapa na mão, traça-se o caminho. Seguir o trilho por onde o caçador seguiu. Era uma antiga estrada de terra batida que certamente teria servido de acesso a qualquer fazenda que por ali existiu noutro tempo. Dela apenas restava operacional um trilho, com alguma largura, bem pisado, limpinho, o que evidenciava a sua grande utilização. Companhia em posição de marcha, bicha de pirilau e aí vamos nós com a máxima atenção mas também com uma vontade enorme de nos afastarmos do local onde tinhamos sido detetados. Cerca das onze horas da manhã, bum, bum, bum, ao longe e instantes depois ouvíamos por cima de nós o silvo caraterísticos das granadas de morteiro a passar para cairem pouco tempo depois na zona onte tinhamos estado parados. A morteirada continuou durante cerca de uma hora, sempre da e na mesma direcção. Nós continuamos a caminhada e por volta da uma e meia da tarde, com um sol abrasador, chegámos a uma zona de árvores frondosas, relativamente dispersas, pois no meio fazia uma clareira de alguma dimensão. O Capitão deu ordem de paragem e colocação em posição defensiva. Um grupo, de quatro militares ficou a emboscar o trilho, três ou quatro grupos de três a quatro sodados ficaram de vigilância enquanto os restantes debaixo das árvores e encobertos pelo capim e arbustos ali existentes aproveitavam para comer e descansar. O silêncio era quase absoluto. Estavamos tão dissimulados que a passarada não nos ligava e fazia as suas cantorias. Apenas os sons destes seres se faziam ouvir. Apenas, não é bem assim, porque de meia em meia hora, mais minuto menos minuto ouvia-se “choc”. Era mais uma lata de laurentina que o Capitão acabava de abrir. Seguia-se o mais absoluto silêncio até nova abertura da lata de cerveja, fazendo juz à publicidade da dita “todas as horas são horas de beber uma Laurentina”, lembram-se?
E aqui estávamos nós à espera da hora para nos aproximarmos do alvo quando, de repente uma barulheira e uma correria com uma grande agitação. Tinham entrado dois guerrilheiros na zona de morte da emboscada. Os dois soldados que tinham os guerrilheiros na mira vêem as suas espingardas encravar e quando tentam que os outros atirem fazem barulho e os emboscados com três cambalhotas desaparecem da mira dos nossos soldados. E agora? Olhamos para o relógio e estamos perto das quatro horas da tarde. O Furriel Raimundo vai junto do Capitão e diz-lhe “Meu Capitão, é melhor sairmos daqui.” “Para onde?” retorquiu-lhe o Capitão. “ Para a frente, para trás, para a direita ou para a esquerda, para onde o meu Capitão quiser, aqui é que não podemos ficar, pois eles sabem exactamente onde estamos”. “Deixe estar aqui” sentenciou o Capitão.
O Capitão Azevedo continuava imperturbável. Choc, fumar mais um cigarro, abrir e beber mais uma cerveja, como se nada estivesse a ou para acontecer. O Furriel Vences, várias vezes foi junto dele pedindo-lhe para sairmos dali, mas nada havia que demovesse o Capitão da nossa estada em tão frondoso local. O tempo foi passando e um generalizado mal estar foi-se apoderando de todos. Mais uma vez o Raimundo foi junto do Capitão tentando que ele tomasse uma decisão. Sair dali. Mas nada. Mais um cigarro, mais uma cerveja e tudo bem.
Cinco e meia da tarde. O dia começa a esconder-se. O pessoal estava cada vez mais nervoso. “Choc”. Nisto, ali bem perto, “PUUUM”, “PUUUM”, “PUUUM”, “PUUUM”, todo o mundo a remexer-se e a ficar na expetativa de ver onde é que elas iam cair. Começaram a cair à nossa beira, ali bem perto. O Furriel Raimundo, olha para o Capitão e este diz-lhe Raimundo, vamos, para o local onde estivemos de manhã. O Raimundo preparou o seu grupo de combate, pôs o pessoal em posição de marcha, pediu para verem atrás se estava tudo pronto para seguir, responderam pela positiva e deu ordem de marcha colocando-se à frente da coluna. Caminhados alguns metros vem palavra de trás dizendo que os outros grupos não estavam a andar nem à vista. As morteiradas continuavam a seguir. Parar, disse o Furriel. Toda a gente se agachou no trilho como que a protejer-se das granadas que ali perto continuavam a cair com alguma intensidade. Através do radio AVP1 o Raimundo tentou o contato com o resto da companhia mas nada. Quando nos preparávamos para retroceder eis que aparece o resto da coluna a juntar-se ao grupo da frente. Confirmado que estava toda a gente, iniciamos a marcha utilizando o trilho por onde tinhamos avançado de manhã, fazendo agora o percurso inverso. Lá para trás, cada vez mais longe, as morteiradas continuavam a cair. Fizemos toda a caminhada já no escuro tendo atingido o local onde o caçador dormia, perto das sete da noite. Ali chegados o Capitão Azevedo deu ordem de “acampar”. Íamos passar ali a noite.
Aproveitando o arranjo do terreno, era quase um quadrado, os diversos grupos de combate tomaram posição de modo a assegurar a cobertura completa do mesmo. Instalados e montadas as respectivas seguranças, foi a vez de jantar e adormecer. Durante toda a noite a festa continuou lá atrás. Dezenas de morteiradas cairam por ali. De manhã, bem cedinho, tornou a haver fogo de artifício. Felizmente, para nós, eles convenceram-se que não tinhamos saído da zona da emboscada. Recordo que o local foi abonado ao cair da noite, hora imprópria para deslocações na mata.
Passámos a noite sem outros sobressaltos que não fossem os rebentamentos lá longe e um ou outro “choc” até perto da meia-noite.
Ao romper da manhã ficámos a pé. Logo que possível o Capitão contatou o Comando em Mueda o qual decidiu que face ao termos sido detetados o melhor era dar a operação por terminada, dando ordem de regresso ao quartel. Perto das oito da manhã, iniciámos o regresso, tendo feito a pé o percurso até ao cruzamento da picada Muera-Nangololo, local onde fomos recolhidos por viaturas que ali se deslocaram para o efeito.
Durante essa curta viagem, fomos brindados pela artilharia que disparou com alguma intensidade os seus obuses para posição atrás de nós, pelo que as granadas passavam por cima de nós deixando-nos o seu impressionante e enervante silvo. Desconheciamos a razão de tal bombardeamento. Soubemos quando chegámos ao quartel que a razão tinha sido um avião NordAtlas que havia sido atingido pelos guerrilheiros quando voava a baixa altitude, tendo resultado a morte de um oficial de artilharia que viajava nesse avião.
Perto das catorze horas chegámos ao quartel com alguma frustação. Saltar das viaturas, formar, efectuar as normas habituais de segurança como seja tirar a bala da câmara puxando a culatra atrás. Costuma-se dizer que não há duas sem três. Tinha-nos fugido o caçador debaixo dos nossos olhos, encravaram-se as espingardas quando tinhamos o alvo debaixo de mira, que mais nos havia de acontecer? O Tubarão e o Araújo ao efectuarem aqueles procedimentos de segurança vá lá saber-se porquê, dispararam a arma. Bum, bum.
O Capitão Azevedo fica fulo, mas mais fulo iria ficar quando foi chamado ao Major “Calcinhas” para explicar porque razão as armas disparam quando não devem e encravam quando devem disparar.
Todo o pessoal foi tomar banho e depois almoçar o que ainda lhe restava da saborosa ração de combate que lhe havia sido distribuida. Perto das quatro horas da tarde o Capitão chama o Furriel Raimundo e diz-lhe que reúna imediatamente toda a Companhia na parada recomendando que cada um se apresentasse com a arma que lhe estava distribuida. Assim foi feito. Companhia, ou melhor os três grupos de combate formados na parada é dada a ordem de marcha a caminho do fundo da pista de aviação. Lá vamos nós, um, dois, esquerdo, direito, um, dois, um, dois. Quando chegamos ao lado da pista de aviação é dada ordem de corrida, a qual se mantém até ao fundo da pista, mesmo ao fundo. Lembram-se que a pista ainda era grande e depois dela ainda havia um grande espaço até à ribanceira que dava para o Vale Miteda? Lá bem ao fundo é dada ordem de parar. Recordo que já havia uns atrasados em especial os que transportavam metralhadoras e morteiros. Grupo reunido e palestra do Capitão. Compreende-se. Regresso em passo de corrida até à Companhia, o pessoal já vinha de rastos. Tinha saído no dia anterior às cinco da manhã, percorrido toda a caminhada da operação nas condições em que a mesma se desenrolou e agora uma corrida que ida e volta deve medir uns bons cinco quilómetros, não é brincadeira nenhuma. Chegados ao quartel, formatura e informação que amanhã às nove da manhã, novamente ali formados e devidamente equipados. Estava em perspectiva nova corrida até ao fundo da pista.
Diz-se que o sono é bom conselheiro. No dia seguinte de manhã, antes do pessoal formar, o Capitão chamou o Furriel Raimundo e diz-lhe, “Já chega de castigo, não acha?” “Acho sim, meu Capitão”, respondeu-lhe o Raimundo. “Mande os homens embora”. Assim foi feito.
Não sei porquê, mas o relatório desta Operação não consta da história da Companhia. Mas porque aconteceu e a maioria dos seus intervenientes estão vivos e se recordam dela, é bom lembrá-la nem que seja como o episódio de guerra que se poderia chamar “Armas que encravam quando devem disparar e disparam quando não devem”.


Escrito 39 anos depois dos acontecimentos.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2009 | 18:10

Mueda, mil vezes nos meus sonhos


Já tinha ouvido falar de ti, Mueda, homens que lá tinham estado antes, falavam de guerra, de ataques, de morteiradas, de helicópteros, de aviões, de medo, de mortos e de feridos.
Mesmo antes de te conhecer já o teu nome me assustava e ao ser mobilizado para Moçambique, logo se apoderou de mim uma ansiedade enorme, será que iríamos para Mueda, talvez não, Moçambique era tão grande que, só com muito azar iríamos lá parar.
Imaginava-te a ser constantemente atacada e com homens de armas na mão junto ao arame farpado, a responderem aos tiros dos guerrilheiros da Frelimo.
Foi ao chegarmos a Lourenço Marques, ainda no barco que recebemos a notícia de que o nosso batalhão iria para Cabo Delgado e a nossa companhia para Mueda.
Logo à entrada fomos recebidos por uma placa nada animadora:

Bem-vindos a Mueda, Terra da Guerra.
Aqui trabalha-se, luta-se e morre-se.
Checa é pior que turra.


Mas tu surpreendeste-me Mueda, tu eras um oásis para nós que vínhamos do mato, cansados, com sede, esfomeados, sujos, feridos alguns, e tu a todos recebias com um sorriso nos lábios, um banho, quando havia água, uma cerveja fresca e o teu aldeamento.
Às vezes o oásis deixava de o ser, era a Hora Maconde e vinha aí um ataque à morteirada, mas até isso nos sabia bem, para que os aramistas e aqueles Chicos que nunca saíam do aquartelamento soubessem o que era a guerra.
Recebeste-me, um rapaz imberbe e amedrontado, mas a pouco e pouco foste-me moldando, ensinaste-me que um homem sozinho não é ninguém, ensinaste-me a amizade sincera, a solidariedade, a união, o espírito de grupo, o espírito de sacrifício, o respeito pelos outros, mas também me mostraste o sofrimento, a morte, a dor e a parte má que há em cada um de nós. Mostraste-me como os homens são capazes dos actos mais heróicos e altruístas, mas também dos actos mais egoístas e cruéis.
Em Mueda fiz coisas que nunca pensei ser capaz de fazer, fiz coisas sem pensar, fiz coisas por medo, por vaidade, mas também fiz outras por amizade, por solidariedade, por amor ao próximo.
Em Mueda fui forte, fui fraco, fui valente, tive medo, matei, morri, chorei, ri-me, cantei, praguejei, comi, bebi, fui feliz. Tantas e tantas vezes fui tudo isso no mesmo dia, só tu Mueda para nos transformares assim.
Durante dois anos conheci todos os teus recantos, o Aldeamento, o AM, o fundo da pista, a messe de Sargentos, a messe de Oficiais, a messe do Batalhão, a caserna da Companhia, o Banco, a Engenharia, a Artilharia, o Pelotão de Morteiros, a Companhia de Transportes, o Esquadrão de Cavalaria, o campo de futebol, os postos de sentinela, as valas, os abrigos, os Filtros, as Águas, as tuas cantinas, o China, o Santos, o Serra, a Sara e até o Hospital e o Cemitério. Em Mueda assisti ao mais bonito pôr -do- Sol que vi até hoje, lá longe no horizonte, por sobre o Vale de Miteda, uma enorme bola de fogo a fugir e a esconder-se do outro lado da Terra, e a noite a cair rapidamente sobre o Planalto dos Macondes.
Também aí aprendi frases que não conhecia: checa é pior que turra, não há psicola, vai para o mato malandro ou fazer máquina.
Já sonhei contigo mil vezes, Mueda, já contei tantas histórias sobre ti e ainda tenho tantas para contar. Como eu, centenas, milhares de homens têm saudades de ti, contam histórias e sonham contigo. Sonham com o teu cacimbo de madrugada, com as colunas a sair para a picada ainda noite escura, com as tuas manhãs enevoadas. Acordam de noite, ouvindo as saídas dos morteiros, o ruído dos helicópteros ou o rebentar de uma mina.
Que fascínio tinhas tu Mueda, que mistérios encerravas, para que homens que aí enfrentaram a morte, ainda hoje, passados tantos anos, falem de ti com tanta saudade, com tanto entusiasmo, com tanto carinho.
Tuas histórias são contadas à lareira, nos cafés, nas tabernas das aldeias, nos restaurantes mais finos das grandes cidades, todos os dias és falada por tantos homens que por lá passaram e nunca mais te esqueceram, o teu céu, as tuas estrelas, o teu amanhecer, os teus dias enormes, os teus ruídos, as tuas ruas esburacadas, as tuas amizades com um copo ao lado, tudo isso está guardado na nossa memória como um tesouro, que de vez em quando visitamos para matar saudades. Saudades enormes Mueda, da chegada do correio, do içar da bandeira, duma visita ao aldeamento, dum salto até ao AM para ver chegar os aviões ou simplesmente de uma conversa noite dentro com os amigos, sem sabermos se seria a última.
E que dizer de uma noite passada com um copo na mão, uma guitarra a trinar e alguém com melhor voz a cantar fados e cantigas da nossa terra, até que já bem noite dentro todos nos sentíamos com voz e coragem para cantar as canções do Cancioneiro do Niassa ou o Fado de Mueda.
Também havia dias bem tristes, quando os helicópteros traziam das picadas ou do mato feridos ou mortos, alturas em que corríamos até ao Hospital, sempre na esperança egoísta de que entre eles não estivessem elementos da nossa companhia. Nessa noite não havia copos, nem cartas para casa, nem sequer conversas, o silêncio tomava conta das flats e das casernas, e cada um sozinho, com os seus pensamentos, tentava resistir o melhor que podia.
Voltaremos um dia, Mueda, agora já não de armas na mão, mas talvez com livros, brinquedos e comida para as crianças, medicamentos para os velhos e um abraço fraterno para todos. Era assim que deveríamos ter chegado aí, há dezenas de anos, mas não nos deixaram. Talvez agora possamos à noite ver as estrelas em silêncio e sem o perigo de um ataque à morteirada, ou talvez possamos sair pela picada fora a caminho das Águas, apreciando em segurança a paisagem, linda, do Vale de Miteda.
Entretanto, vou-te visitando nos meus sonhos, vou falando de ti nos almoços da Companhia ou vou recordando histórias com aqueles, que como eu, te recordam com saudade.
Outras vezes vou vendo algumas fotografias que guardo com carinho e orgulho, e que já me têm dado forças em momentos mais complicados, ao olhar para elas e sentir novamente ao meu lado aqueles velhos companheiros de tantas e tantas lutas.
Foste tu Mueda que me ensinaste a ser, o homem que hoje sou, transformaste toda a minha vida, tenho a certeza que parte do melhor que há em mim foi forjado aí, até por isso tu és especial.
Adeus, até um dia, Mueda dos meus sonhos.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009 | 01:07

Como eu me Enganei

Janeiro de 1971, dia 12. Quatro rapazes num mini que foi reparado para esse fim, arrancaram da nossa terra com destino ao serviço militar.
Chegados ao destino por volta do meio-dia, almoçamos num restaurante cá fora e só entramos no quartel por volta das três da tarde, onde nos foi dada a farda que tinha um cheiro a naftalina que só desapareceu quando no ultramar deixei de ser checa.
Passados estes anos todos, ainda recordo aquele primeiro dia de tropa, onde á noite deitado na cama a olhar para as telhas da caserna iluminadas com a luz de plantão, e com os olhos em lágrimas, a perguntar a Deus se iria sair dali com vida e inteiro. Foi uma pergunta sem resposta, mas conforme o tempo ia passando, ia-me convencendo que sim. Mas por vezes, e muitas, pensei que não.
A recruta foi feita, deram-me a categoria profissional de atirador de infantaria, e fui destacado para Tavira, para o velhinho quartel da Atalaia CISMI; aí reparei que além de outros rapazes da minha idade, havia um que estava a fazer justamente o mesmo percurso que eu, era o Camões, isso veio a confirmar-se porque dali fomos para Aveiro dar recruta, embora ele tenha ficado cá em cima no R.I.10 e eu lá para baixo para o 5 onde não havia chicalhada, e por isso mesmo, andávamos mais á vontade.
Foi ali, numa tarde de um belo dia de sol que tive conhecimento que estava mobilizado para o ultramar, para província de Moçambique. Um dia de sol que nesse momento ficou negro, mais negro que o negro do luto.
E foi nesse instante também que pensei: - Bem, deve ser melhor que ir para Angola ou Guiné, porque não se fala tanto. Mal eu sabia o que me esperava.
Após a instrução, e com a ordem do dia cá fora, fui procurar os outros companheiros para saber qual a situação deles, que não era melhor que a minha, pois estávamos todos mobilizados para as províncias ultramarinas. E mais uma vez o Camões iria fazer o mesmo percurso que eu pois íamos apresentar-nos no mesmo quartel em Penafiel, com destino a Moçambique, pertencendo ao mesmo batalhão, embora não à mesma companhia.

Mais tarde fomos para Viana do Castelo, ou seja para o velhinho quartel da Barra, e foi o que se passou aí que deu origem a esta minha recordação e a este texto.
Estávamos a 7 de Janeiro do ano 1972, com o embarque marcado para o dia 9 e eu de serviço, sargento de dia à companhia, na C.ART. 3503. Na C.ART.3501, o Camões e na C.ART. 3502, o Pinto. Era perto da hora de jantar, um deles veio ter comigo, e perguntou se depois do recolher, eu alinhava em nos desenfiarmos de comboio para o Porto, que era ás 11 da noite, e vínhamos no da uma ou duas da manhã, não me recordo. Agora também me recordo que quem também alinhou foi o que estava de sargento da guarda, que deixou tudo controlado porque aquela era a última noite que iríamos passar ali, a seguinte seria passada no comboio em viagem para Lisboa, para embarcarmos para o ultramar no paquete Niassa.
Tudo correu às mil maravilhas, e assim nos vimos dentro do paquete Niassa. Quando este desatracou do cais, quem estava numa das suas repartições acenando para os familiares num adeus e até breve? O Caseiro, o Camões, o Pinto e o grande amigo do Camões, o Candeias, e o motivo que nos levou a estarmos todos juntos mais uma vez, foram os comentários sobre a noite anterior no Porto, porque no comboio não tinha dado para falar.
E num desses momentos a acenar às famílias eu disse em voz alta:
- ESTAI DESCANSADOS QUE VAMOS REGRESSAR TODOS SÃOS E SALVOS!
Pois, caros amigos, como eu me enganei: o Pinto, passados cinco ou seis meses, ficou sem um pé; o Camões faleceu passado ano e meio de lá estarmos, e de uma maneira que só de pensar até me arrepio; o Candeias, a faltar poucos dias para os dois anos de lá estarmos também faleceu, foi um dos que morreram no dia 1 de Janeiro de 1974, quando levavam o pão ao pessoal da C.ART. 3503, que estava nas Bananeiras.
Dos quatro, só eu posso dizer que regressei são e salvo, com a graça de Deus, e vos digo como é tão fácil a gente enganar-se quando pensa ou imagina saber o destino de cada um.
A estes ex. companheiros e outros que também faleceram aqui lhes presto a minha homenagem.

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quarta-feira, 15 de outubro de 2008 | 19:23

O Dia em que Comandei a Companhia

O primeiro objectivo de um soldado é permanecer vivo, e não há soldado que não faça tudo para sobreviver; mas a um enfermeiro na guerra é exigido mais do que isso. É necessário que se esqueça de si no momento mais perigoso e vá em socorro dos que tombaram, trocando a arma pelos produtos de enfermagem, que terá que manejar com os cuidados e assepsia possíveis no meio do pó, da terra, da confusão e do perigo de morte.
É a ele que cabe dizer-nos que tenhamos coragem, que não vamos morrer, quando ficamos feridos, e é a ele que cabe procurar o que resta de nós na picada ou no meio do capim quando somos feitos em pedaços por uma mina, e depois arrumar o que se pôde encontrar para que as nossas famílias, lá longe, venham a ter algo de nós para velar.
Quando se ouve o sinistro estampido de uma mina todos os soldados se atiram ao chão, rastejam e se protegem debaixo das viaturas.
Todos não. O cabo Costa levantou-se quando os outros se baixaram, e foi em busca dos feridos. Dirigiu-se ao Raimundo e preparou-se para o socorrer. A cara dele numa pasta de sangue quase sem ver nada. – Vai procurar o Lemos, Costa. Vai socorrer o Lemos.
Não tinham passado mais de vinte segundos desde a explosão. Vinte segundos em que se pode aprender o que não se aprendeu em vinte anos. Vinte segundos que me fizeram dar um salto psicológico.

É frequente justificarem-se os actos insanos praticados na guerra, com a tensão vivida nos momentos de perigo. Homens pacíficos; camponeses, operários, estudantes, empregados de escritório; transformados durante anos em predadores, sofrem um desgaste moral impensável em momentos de paz… A síndrome da degradação moral. A génese do distúrbio pós-traumático. Mas… em casos por ventura raros; estou seguro, obtêm uma sublimação moral, um salto psicológico.
Se tem algum fundamento a resistência psicológica de que me gabo constantemente, devo-a a esses vinte segundos. Tenho a certeza que se a guerra me tivesse dado oportunidade, teria saído de lá muito melhor do que entrei.
Um homem com a missão de salvar os seus pares no pior momento do perigo. Um homem em risco de ficar cego por uma mina traiçoeira a pensar no seu camarada tombado na picada. Vinte segundos da minha vida que guardo religiosamente como um legado de valor incalculável.
Há muito que a guerra acabou, e durante estes anos todos, alguns de nós guardam em silêncio imagens como estas. É que, entretanto, outras guerras tiveram lugar, onde outros soldados com mais de vinte anos de vida, mas sem terem ainda os vinte segundos que lhes permitissem dar o salto psicológico que os fizessem crescer, julgam que é o gatilho das armas que empunham, que fazem deles heróis, ou homens dignos de admiração pelos outros representantes da sua espécie.
Alguns de nós, guardam em silêncio muitos vinte segundos como estes e olham para o lado incomodados, quando a televisão mostra em directo as guerras que não param de se suceder, transmitidas como espectáculos de circo.
Durante anos e anos, tenho revivido a imagem do enfermeiro Costa a tentar socorrer o Raimundo e depois a ir em busca do Lemos partido em dois no meio da picada, e por vezes tento imaginar o que seria ver essa imagem na televisão à hora do jantar, ou no café, no meio das risadas dos amigos, e acabei por perceber porque tantos de nós optam pelo silêncio. É por pudor que o fazem. Por não serem capazes de expor em público uma memória do foro íntimo. Seria como subir a um coreto para chorar um desgosto profundo. É algo demasiado valioso para ser tratado como um entretenimento passageiro, como um fruto que se sorve rapidamente cuspindo o caroço para o chão.
Os consumidores de emoções rápidas aprendem a não penetrar na essência das coisas; entendem das coisas apenas o que o olhar apreende; fazem com toda a informação o que fazem com a comida, mastigada à pressa entre duas tarefas urgentes e inadiáveis, dado que toda a fast-food é apenas para defecar. Não poderão entender as emoções envolvidas numa frase assim, aparentemente banal, "Vai socorrer o Lemos", dita entre a vida e a morte, entre a coragem e o medo, entre o instinto primário de sobrevivência e o altruísmo, entre o cumprimento do dever e o sentido crítico. Não poderão entender que um acto que envolva risco para quem o pratica só merece ser considerado corajoso se não for gratuito ou exibicionista, e se for consciente; isto é, é preciso sentir medo para se ser corajoso.
O Raimundo ia a comandar a companhia, foi ferido, recebeu o socorro corajoso do enfermeiro Costa, e fez ele próprio a triagem da emergência médica, secundarizando-se, ficando na berma da picada, escorrendo sangue do rosto, ainda sem saber se não ficaria cego. – Vai procurar o Lemos, Costa. Vai socorrer o Lemos.
Eu era agora o mais graduado da companhia. E era preciso continuar, era preciso estar à altura do cargo que recebi do Raimundo, era preciso encobrir o medo, cabia-me a mim agora fingir coragem. Mas fingir coragem, é na guerra, a única coragem possível.
Os helis vieram e levaram os feridos, a coluna organizou-se e continuou a sua missão. A tensão, o medo e um ódio indefinido tomou conta de todos como era costume.
E longe dali, os que verdadeiramente mereciam ser objecto do nosso ódio, aqueles que não tinham coragem de tomar decisões com medo de mudar o rumo da história, por não estarem à altura dos cargos que ocupavam, continuaram ainda por muito tempo a manter tudo na mesma, até que um dia o nosso ódio não coube mais em nós, e apeámo-los do poleiro. As mesmas mãos e as mesmas armas, e a mesma generosidade. Quando um povo é capaz de lutar e descobre que não são justas as causas que lhe deram, inventa uma.
Depois seguiu-se um longo período de silêncio sobre a Guerra Colonial em que a nação inteira pareceu viver um colectivo distúrbio pós-traumático do stress de guerra. Silêncio só entrecortado por uma falsa autocrítica de características tipicamente portuguesas, que se apressou a fazer alarde de todos os erros e crimes dos soldados portugueses, desculpando ou ignorando os dos seus opositores na mesma guerra; o que ainda assim teria algo de positivo se fosse genuína e contribuísse para uma reeducação colectiva, porque todos os crimes merecem denúncia e punição. Mas infelizmente essa autoflagelação, essa ancestral e muito portuguesa lamúria auto punitiva, não passa de uma cobarde generalização dos erros dos nossos pares com o intuito de parecermos individualmente a excepção à regra. A mesma pseudo-autocrítica que ao longo dos anos só tem contribuído para perpetuar o enaltecimento reverencial dos feitos alheios e cultivar a baixa auto estima nacional.
Mas se a má consciência pátria esquece os seus soldados assim que não precisa deles, ou se acha que é fingindo que nada aconteceu que paga a sua dívida para com a História, é porque não aprendeu nada. Tão indignos são os governantes que não estão à altura da história por tentarem manter uma guerra injusta, como aqueles que se esquecem das suas vítimas.
E nós? Será que nós não temos a obrigação de pôr o pudor de lado e contribuir com a nossa experiência para que os nossos filhos não permitam que cheguem ao poder aqueles que hão-de enviar os nossos netos para a guerra?
Há muitos anos, nesse dia em que eu tive que comandar a minha companhia, numa picada perdida no meio do mato, no norte de Moçambique, o enfermeiro Costa ainda teve que se erguer mais uma vez, quando soou de novo o sinistro baque de mais uma mina; e enquanto os outros se atiravam ao chão.
Durante alguns minutos, nos minutos mais perigosos que se podem viver numa guerra, teve que se esquecer novamente de si, porque a guerra lhe entregou a minha vida para salvar. E o comando da companhia, como um testemunho, que eu recebera do Raimundo.
Nesses curtos minutos em que a vertigem da morte eminente nos leva todos os sentimentos e ficamos completamente despidos por dentro, só um olhar humano nos restitui a vida. O olhar a fingir coragem, a única coragem genuína.
E até ao resto dos meus dias, aqueles momentos da mais genuína coragem que um homem pode testemunhar, criaram-me uma enorme responsabilidade; a de tudo fazer para que esta vida que o enfermeiro Costa salvou mereça a pena ser vivida; quanto mais não seja para que o seu acto heróico não se viesse a tornar num inglório, gratuito e inútil sacrifício.

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domingo, 20 de julho de 2008 | 00:54

Os Pára-quedistas


Oito de Maio de 1972, terceiro mês na guerra da companhia 3503.
Tínhamos partido de Mueda para levar uma coluna a Omar e agora, já de regresso e após uma semana passada na picada, tentávamos a todo o custo ir dormir ainda nessa noite ao aquartelamento.
Omar, situado a meia dúzia de Kms do rio Rovuma e com a Tanzânia à vista, distava cerca de 75 Kms de Mueda , mas percorrer essa picada nos dois sentidos, levava sempre vários dias e muito sangue derramado das várias companhias que por aí passaram, pois as emboscadas, os ataques de morteiro e as minas, eram companhia obrigatória em todas as colunas realizadas nessa picada. Principalmente as minas que se contavam sempre por dezenas durante esse trajecto.
Tendo acompanhado o grupo de picagem durante cerca de uma hora, acabara de ser substituído nessa tarefa pelo Ventura, pelo que procurei uma viatura para me instalar e como achei que a primeira ou segunda eram demasiado perigosas, escolhi a terceira que era conduzida pelo Abílio Teixeira. Tentando obter uma boa visibilidade dos acontecimentos e ao mesmo tempo proteger-me de uma possível mina, coloquei os pés em cima do assento ao lado do condutor e sentei-me em cima da estrutura da cabine, pois como era hábito as viaturas nestas picadas viajavam sem essa cobertura.
Já instalado, acendi um cigarro e observei a picada onde seguiam os picadores, à frente 2 homens com ancinhos, um de cada lado e depois, alternadamente, homens armados e outros com picas e no meio deles, também um de cada lado, seguiam dois homens com os detectores de minas, aparelhos velhos da segunda guerra mundial, mas muito úteis, pois eram eles que muitas vezes nos indicavam os locais onde as minas estavam enterradas.
Fixei os olhos num desses homens, neste caso o que seguia pelo rodado do lado esquerdo da picada, era o Velhinho, que momentos antes me pedira autorização para levar o detector e eu, contrariando a opinião de alguns soldados, que me diziam não ser o Velhinho de confiança para aquele trabalho, resolvera autorizá-lo.
Auscultadores nos ouvidos e olhos no chão, ele lá seguia, concentrado e extremamente orgulhoso da sua missão.
Mais descontraído, estiquei o pescoço tentando avistar Mueda ao longe, talvez a saborear já a cerveja que me esperava.
De repente um enorme estrondo e sem saber como dei por mim caído no meio do capim, rodeado de fumo por todos os lados e um inconfundível cheiro a trotil. Demorei a perceber o que tinha acontecido, a minha cabeça estava muito confusa e parecia querer rebentar, mas uma coisa eu sabia, tinha que afastar-me dali o mais rápido possível. Levantei-me e tentei dirigir-me para onde ouvia vozes, mas desorientado fui ter à picada um pouco distante do local para onde tinha caído. Do lado direito da viatura, dentro do capim, alguns homens procuravam qualquer coisa e ao perguntar o que se passava disseram-me:” caiu para aqui um gajo”. Resolvi ajudar e durante alguns segundos procurei também no capim o desgraçado que para ali tinha voado. Mas de repente fez-se luz no meu espírito, quem caíra para aquele lado não fora outro se não eu.
Tinha acabado de viver duas experiências completamente novas, a de pára-quedista e a de pela primeira vez na minha vida ter andado à procura de mim próprio.
Para o lado esquerdo da picada tinha voado o Abílio Teixeira, pois a mina tinha rebentado exactamente no rodado sobre o qual passara antes o Velhinho.

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terça-feira, 27 de maio de 2008 | 01:41

Carta a Mueda



Do posto de água 9 ao 34, do 34 a Omar, ou do 34 a Mocimba do Rovuma e a ida a Muera; muitas batalhas de vida e de morte se travaram, onde infelizmente a morte em algumas venceu.
Do China ao Chindorilho, das Águas às Bananeiras, e de ti Mueda a Nanglolo, a morte esteve sempre presente, mas por distracção sua ou porque não estava interessada, a maior parte dessas batalhas foram ganhas por esses valorosos rapazes da C.ART. 3503 e talvez sejam esses que te amam, porque do ódio pode nascer o amor, segundo dizem os filósofos; ou quem sabe, passados estes anos é que o nosso amor por ti tenha nascido.
Hoje recordo as tuas madrugadas frescas pela queda do cacimbo; durante a noite; o teu cheiro africano misturado com o cheiro do pão fresco; que tanto se preocupou o padeiro durante a noite em o ter pronto na hora para que os operacionais o fossem buscar, para depois irem para o mato ou para a picada; que normalmente o mínimo era por três dias.
Pão tão fresquinho que por volta do meio-dia já estava seco devido ao calor que fazia no mato.
Durante o dia, quando no aquartelamento se estava, e os helicópteros se avistavam, era porque algo de mal se passava, porque no hospital pousavam. Para o hospital se corria a fim de se saber o que se passava – era mais um que morria, e mais uma vez na morte se pensava.
Nas tuas noites, quando se bebia, tudo se esquecia; até a morte que nos esperava no dia seguinte. Julgávamos por vezes sermos as pessoas mais felizes do mundo, mas quando caíamos na realidade, e sem o efeito da cerveja, agradecíamos a Deus por nos ter dado mais um dia, e pedíamos-lhe que nada de mal nos acontecesse e que nos levasse para junto da família, sãos e salvos.
Tu Mueda, hoje és para mim uma segunda terra mãe, que me ensinaste o valor que a vida tem, lutando muitas vezes contra a morte.
A todos aqueles que em ti lutaram pela vida, um bem ajam.
E tu Mueda, que continuas aí tão distante, será que tens saudades de mim? Aguarda-me, que um dia, se eu puder, vou aí…

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quinta-feira, 20 de março de 2008 | 16:52

Merecer a Água que se Bebe

Estávamos no mês de Dezembro do ano 1972 em Mueda, quando nos foi dito a título sigiloso que a CART 3503 ia levar a cabo uma grande operação hélio transportada.
Sendo uma actuação a nível de companhia o capitão não pôde escapar e assim se viu em pleno mato, onde estivemos seis dias; e num desses dias fizemos um achado, que este senhor considerou como troféu de guerra, o que afinal não passava de algumas granadas e um grande número de munições de vários calibres.

Não falando de como decorreu a operação, chegou o dia de regresso. Deslocámo-nos para a antiga missão onde nos esperavam as viaturas militares e assim fizemos o regresso pela picada que se cruzava com a picada de Nancatary, que passava pelo destacamento das Águas, onde os camiões tanques eram enchidos para abastecer Mueda.
Só quem esteve em Mueda sendo operacional; ou aquele que não sendo operacional, se atrevia a sair do arame farpado; é que conhecia aquele cruzamento, que era quase no final da subida que vinha das Águas, e assim poderia imaginar o quanto sofria nessa subida um condutor desses camiões tanques carregados de água para chegarem lá cima.
É neste cruzamento que nasceu esta minha história ou denúncia como queiram chamar-lhe: o cruzamento de um camião tanque cheio de água que vinha a gemer por todos os lados com a coluna de viaturas que trazia os militares que tinham estado na operação.
É aqui que entra o senhor capitão. Começou aos berros com o condutor para que parasse o camião, sujeito a ir parar ao vale de Miteda se lhe falhassem os travões. O coitado depois de tanto sacrifício em trazer o camião para cima, ainda teve que ouvir o senhor capitão, que estava ansioso por chegar a Mueda para mostrar o seu troféu, para o qual em nada contribuiu, ao seu padrinho que era o comandante do Batalhão.
Este senhor comandou a CART 3503 durante quatro meses, de 28 de Outubro de 1972 a 28 de Fevereiro de 1973, esta foi a única vez que saiu para o mato connosco, tendo-se desenfiado para a sala de operações onde não arriscava a pele, mas recebeu um louvor a 31 de Janeiro, à custa, evidentemente, de ter sacrificado a companhia com constantes operações de alto risco, ao contrário dos outros cinco comandantes que cumpriram o seu dever mas sem nunca tentarem cair nas boas graças dos seus superiores à custa do sacrifício alheio.
Mas não termina aqui esta minha denúncia. Como se não bastasse o que disse ao condutor ainda lhe deu uma bofetada. O condutor que era um soldado negro, pareceu-me ter ficado branco naquele momento, mas a verdade é que se fosse branco não sei se ele teria coragem de lhe bater, porque estaria sujeito em Portugal a que o soldado o procurasse para lhe pedir satisfações.
Só me falta dizer que sendo a água para abastecer Mueda, aquele senhor não só não mereceu o louvor que recebeu à nossa custa, como nem merecedor era da água que bebia.

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domingo, 24 de fevereiro de 2008 | 17:59

Heróis?! - 2


Continuação daqui

Numa pequena mesa, cartas na mão, os comandos «superiores» fingiam não escutar as «bocas» daquele médico feito «major», que os «operacionais» tinham como grande amigo.
A proximidade da época natalícia, e do fim do ano tornavam o ambiente ainda mais tenso que o normal. Toda a companhia preparava a sua festa de Natal. A «Companhia Macaca» com um pinheiro, símbolo clássico lá longe, na terra, e a que os soldados africanos aderiam, colocado no meio da caserna, criou o ambiente possível para esquecer, ou pelo menos, tentar amenizar as saudades, uma vez mais, exactamente naquela que é por todos considerada a festa da família.
Todos falavam na esperança do regresso breve, pois nos primeiros dias do ano novo, a comissão de serviço chegava ao fim. Ao mesmo tempo, não se conseguia esquecer «aquele que dormia naquela cama», e o outro «que ficava aqui junto da árvore de natal», ambos tombaram nesta maldita guerra; e outros que tiveram de regressar mais cedo, com marcas físicas, para sempre. E a hipótese, quase realidade, de algum ainda vir a cair no tempo de serviço que ainda restava cumprir.
Os comandantes sentiam a tensão vivida à sua volta. Havia que combater. Intensificavam-se as saídas de grupos de combate para o mato, uma das formas de aproveitar a agressividade que em certos momentos mais se apoderava dos soldados. Por outro lado, iniciaram-se os preparativos para organizar um festival de Natal. Falava-se na vinda de cantores e músicos.
Uma operação de envergadura de apoio a uma coluna logística que vinda de Nampula e se destinava lá bem ao Norte – Mocimboa do Rovuma – deveria ser comandada pelo capitão desta companhia, a partir de Mueda. Mais de 50 viaturas, entre militares e civis, transportando abastecimentos e material diverso, com o empenhamento de mais de uma centena de homens.
Á medida que os dias de Dezembro se iam sucedendo, a coluna aproximava-se de Mueda e por isso iniciavam-se os preparativos para a receber, e depois levá-la até ao seu destino. Estas colunas, eram o grande drama daqueles que passaram por Mueda e que nelas tinham de participar. Raramente conseguiam chegar ao destino e voltar com o mesmo número de homens que as iniciavam. As baixas, pelos ataques que sofriam ao longo das picadas, e principalmente, os efeitos das minas, antipessoais ou anticarros, marcavam quantos nelas participavam. A tensão vivida em Dezembro era reforçada pela realização desta coluna.Para o capitão, seria a primeira saída «a sério» para o mato. As interrogações acerca do que o esperava eram amenizadas com o conjunto de tarefas a que tinha de responder, desde a escolha dos homens que o acompanhariam, os materiais de guerra que importava levar, as viaturas militares necessárias, etc. etc.

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sábado, 12 de janeiro de 2008 | 01:10

A Primeira Mina


Eram 9 horas da manhã de princípios de Março de 1972, o Sol já ia alto e alguns de nós já tínhamos tirado o camuflado e era em tronco nu que caminhávamos picada fora, rumo ao Sagal. Era a primeira coluna a valer para a maioria de nós, pelo que todos íamos bastante tensos e apreensivos à espera da mina escondida ou da emboscada traiçoeira.
Com a temperatura a subir e a sede a aumentar socorri-me de uma cerveja 2M enquanto observava a picada até onde a vista alcançava, tentando adivinhar se já estaríamos perto do Chindorillo. Mas não tive sorte e voltei aos meus pensamentos, afinal o que estava ali a fazer a cerca de 13000 Km de casa, a defender não sabia o quê, colocando a minha vida em risco a cada momento e como se isso não bastasse sendo o responsável pela vida de cerca de uma centena de homens que me acompanhavam.
Bebi mais um golo de cerveja, agora, já morna, e tentei ser optimista, com um pouco de sorte daqui por umas horas estaríamos de regresso a Mueda, tomaríamos um belo banho, beberíamos umas cervejas bem frescas e sentar-nos-íamos a ler o correio que nos trazia as notícias daqueles que lá longe, no Puto, se preocupavam connosco.
Voltei novamente à guerra, onde cerca de uma dúzia de viaturas seguia lentamente pela picada, na primeira, um rebenta-minas, o condutor tentava desesperadamente pisar as pegadas que os picadores em bicha de pirilau iam deixando pelo caminho. O andamento era lento, demasiado lento para os nossos nervos, mas todos sentíamos que dependíamos da perícia daqueles homens, tanto os que procuravam as minas como os que tentavam conduzir aquelas viaturas, algumas das quais já deveriam estar na sucata.
Pé ante pé, rodado sobre rodado, era uma autêntica lotaria, só que ali não se tentava ganhar dinheiro, mas apenas não perder a vida.
De repente um grito “mina”. Dirigi-me para o local onde tinha sido detectada a mina, mas nesse momento o furriel da fox gritou que nos deitássemos todos ao chão, pois ele ia bater a zona. Ouvi então pela primeira vez o matraquear fortíssimo da metralhadora fox, cortando os ramos das árvores dum lado e do outro da picada numa extensão de várias centenas de metros, tentando dessa forma detectar alguma emboscada que por acaso estivesse preparada.
Quando terminou perguntei quem ia rebentar a mina e perante a falta de resposta conclui que como checa que era tinha cometido um erro, na coluna não seguia nenhum sapador. Como comandante da coluna não tinha alternativa, teria que ser eu, até porque já o tinha feito uma vez em Lamego, na especialidade, embora aí com uma mina a fingir. Assim, peguei na bolsa de sapadores, essa pelo menos não tinha ficado esquecida, e depois de mandar afastar toda a gente instalei-me junto da mina para iniciar o meu trabalho. Nessa altura chega junto de mim o Barreiros que diz que me vai dar protecção e ao mesmo tempo aprender como se faz para na próxima vez já estar preparado. Enquanto o Barreiros com a catana cortou o terreno à volta para verificar se não havia algum fio enterrado eu preparei-me para iniciar o meu trabalho. Fiz tal e qual como aprendera na instrução, cortei um bocado de cordão lento, cerca de 15 cm, o que dava para 15 segundos, peguei no alicate e no detonador, liguei o cordão lento ao detonador, até aqui tudo bem, coloquei o detonador no petardo e, agora já a suar por todos os lados e com as mãos a tremer entalei o petardo cuidadosamente junto à mina. Estava tudo preparado, já só faltava acender o rastilho, pedi os fósforos ao meu ajudante que até aqui se mantivera em silêncio e depois de acender um fósforo encostei-o ao rastilho que imediatamente brilhou e começou a arder. De imediato eu e o Barreiros começámos a correr e atirámo-nos para debaixo do rebenta minas esperando pela grande explosão. Passaram os 15 segundos, depois outros 15 e ainda mais 1 minuto, dois minutos e nada, algo tinha corrido mal e só havia uma coisa a fazer, ir novamente até à mina e tentar perceber o que se tinha passado.
E lá fomos novamente eu e o meu ajudante, agora com alguns curiosos atrás que queriam ver com os seus próprios olhos o que teria acontecido. Com o máximo cuidado aproximámo-nos lentamente e verificámos que não havia nenhum mistério, simplesmente o cordão lento que já era velho ardera apenas um bocado e apagara-se, por sorte não era cordão detonante, pois os checas tinham pegado no primeiro cordão que encontraram e foi esse que utilizaram.
Resolvemos começar tudo de novo e enquanto eu preparava o detonador e o petardo, o meu ajudante, já mestre, cortava um bocado de cordão lento agora bastante maior, cerca de 25cm e desfiava os lados do mesmo para que este pudesse arder nas melhores condições. Depois de tudo novamente preparado, acendemos o rastilho, esperámos um pouco para ver se ele não se apagava e como verificámos que estava a arder normalmente iniciámos nova corrida e abrigámo-nos debaixo do rebenta minas. De repente um estrondo enorme, pedras e areias a cair por todos os lados.
Olhei para a picada e um cogumelo elevava-se no ar e um cheiro diferente entrava-me pelas narinas, cheiro esse que me iria acompanhar muitas vezes e que fiquei depois a saber que era o que os velhinhos chamavam “cheiro a trotil“.
Tinha sido a minha primeira mina, mal sabia eu que no futuro não só eu, mas muitos dos elementos da companhia iriam rebentar dezenas, talvez centenas de minas, sem coletes de protecção, sem máscaras, sem televisões a filmar e principalmente incógnitos e sem o reconhecimento do país que para lá os mandou.

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quinta-feira, 17 de maio de 2007 | 15:07

Não me Atirem Flores


Não me atirem flores
Tenho uma arma na mão
Estou com muitas dores
E um aperto no coração

Com esta arma matei
Ao lado dela dormi
Com ela por vezes não respirei
Como também muito sofri

Hoje olho para trás
E muitas coisas recordo
Não sei como fui capaz
De sair dela sem ser morto

Por vezes para a Lua olhava
E ao seu lado estrelas via
Muitas vezes sonhava
Com aquilo que fazia

Foram bons e maus momentos
Se passaram na c.cart.3503
Recordo alguns sofrimentos
E dos grandes amigos que nos fez

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quinta-feira, 12 de abril de 2007 | 01:43

Prefácio

De Penafiel a Mueda, do Tejo ao Rovuma, do lar ao fim-do-mundo, da inocência ao inferno se fez a história da Companhia de Artilharia 3503.

Cada um dos seus homens tem muitas histórias para contar, trazem-nas consigo há muitos anos; alguns querem guardá-las em silêncio consigo, como algo de íntimo e intransmissível, por acharem que uma vez verbalizadas se tornariam banais, e os sentimentos que lhes estão associadas desbaratados por quem não sabe o que significou negociar com a Morte dia-a-dia de arma na mão. Hoje as guerras são espectáculo de fogo-de-artifício, em directo na televisão, que é visto à hora do jantar no recato do lar, como qualquer reality-show, e a comparação da guerra que conhecemos com esse espectáculo seria degradante para as nossas memórias. É por isso que devemos respeitar os que optam pelo silêncio.

Este blog foi criado para os que não optaram pelo silêncio. Nele caberão todas as palavras que os veteranos da Cart 3503 ainda trazem consigo, mas não tenhamos ilusões; as palavras não são os factos e nem sequer os sentimentos; são apenas códigos de comunicação com que temos a ilusão de dizer a verdade, e não haverá dois de nós a dizer a mesma coisa do mesmo modo. É por isso que devemos respeitar os que optam por dizer o que pensam.

Outros, por ventura, optarão por retratar os sentimentos, assumindo a inutilidade de tentar repetir a realidade, aceitando o papel da memória que umas vezes censura outras vezes interpreta a informação modificando-a; a ilusão aqui não é menor, é apenas assumida. É por isso que devemos respeitar os que optam pela ficção ou pela poesia.

Foram repostos os textos do Silvestre, do Caseiro e do Almeida que eu já tinha publicado no meu blog "Outros Testemunhos", bem assim como os comentários dos visitantes.

Para agilizar a publicação dos textos e para garantir alguma organização, encarregar-me-ei de administrar o blog, garantindo que não existirá qualquer censura ou truncagem do que me for enviado para publicação.

Só não haverá lugar à calúnia, à pornografia e à mentira maldosa; porém a indignação, a sensualidade e a fantasia serão bem-vindas; que nenhuma palavra até hoje reprimida fique por dizer, nenhuma acusação justa por fazer, e que o perdão, que é a vingança dos magnânimos, seja a prova da nossa superioridade moral.

Houve uma guerra. Nós lutámos lá; nós morremos e matámos lá.

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

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