Histórias da CART 3503

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

sexta-feira, 15 de junho de 2007 | 17:14

Guerra

Descontraidamente ao volante do jipe, o novo capitão da «tropa macaca» percorria lentamente aquelas «ruas» de terra batida, que separavam as palhotas, no aldeamento. Estava-se em Outubro, nem há uma semana sequer, havia chegado a Mueda. Calhava-lhe comandar aquela tropa, já com cerca de 20 meses de guerra, sempre em Mueda.
Ao fim da tarde, quando o sol desaparecera já, e as actividades militares deixavam um pouco de tempo livre, os militares gostavam de ir até ao aldeamento. A correria das crianças de um lado para o outro, os velhos sentados, conversando, junto às suas palhotas, algumas destas adaptadas como bares, onde a cerveja ajudava os soldados a esquecer a guerra e as raparigas oferecendo-se, única actividade capaz de lhes proporcionar alguns escudos, enfim, este o ambiente de refúgio para a tropa.
Observando este «novo mundo» onde fora lançado, o novo comandante da «tropa macaca» foi surpreendido, por um rebentamento que se foi repetindo. Todos correm. As mulheres agarram as crianças, gritam, lançam-se nas valas que ladeiam as ruas. Os soldados desaparecem em direcção aos respectivos postos de combate. E o capitão... atónito, parado no meio da rua, ao volante do jipe, sem saber que fazer, nem compartilha daquela fuga desordenada das crianças que antes brincavam ou dos soldados e mulheres que bebiam...até que um estrondo mais forte e muito próximo, fê-lo saltar do jipe e correr, correr...
Aos primeiros rebentamentos provocados por morteiros, vinham guerrilheiros, próximo do arame farpado, fazendo «cantar» as armas ligeiras. Forma simples de habituar o ouvido à diferença dos disparos das diversas armas utilizadas em combate.
Depois de passar pela escola, onde procurou abrigo, que àquela hora costumava receber alguns soldados africanos, ninguém se encontrava lá, estava deserta.
Então correu para a Igreja, e lá ficou, conjuntamente com algumas crianças e mulheres, assustadas e que com a presença do capitão pareciam mais calmas. Mas, mal se sentiu minimamente calmo, desatou a correr em direcção à «flat» - a designação, talvez sul-africana, dos quartos – sendo acompanhado naquela correria pelo recomeço do tiroteio.
Na «flat» encontrou ainda mais assustado que ele, um outro oficial. Novo nesta guerra, o capitão logo lhe sugeriu que saíssem dali, antes que alguma bomba caísse no telhado e os liquidasse. Mas ele não, o pior já havia passado quanto a bombas, agora o que o assustava era o «cantar» ininterrupto das «kalachnikov», as armas ligeiras utilizadas pelos guerrilheiros. Encostados à porta, com o ouvido alerta, preocupava-os a proximidade daquele tiroteio.
- «Será que vêm ao assalto?» - alarmou-o ainda mais o companheiro do momento. E insistia:
- «Não há dúvida que só se escutam as armas deles» - aproveitava assim o silêncio e ignorância do capitão quanto à identificação da origem daquele tiroteio.
De vez em quando abriam a porta, devagarinho, com a G3 que estava no quarto, ambos a segurá-la... mas, eis que um disparo mais forte, logo os fazia recuar e fechá-la prontamente. Assustados, impotentes, por ali ficaram. Deitaram-se nas respectivas camas e ficaram a ouvir o tiroteio aparentemente indiferentes à entrada «deles» que o amigo de ocasião não se cansava de admitir.
Aos poucos, o tiroteio foi diminuindo de intensidade e cá fora o ruído de viaturas militares e pessoas denunciavam que o ataque terminara e havia agora que socorrer os feridos e acalmar os mais assustados.
Saíram da «flat», e enquanto o companheiro de emoções se dirigia à messe, o capitão «cheka» procurou nas instalações dos seus homens tomar conhecimento acerca da situação que todos acabavam de viver.

Fora a sua estreia na guerra. Acabado de chegar, há alguns dias, pôde assim sentir os efeitos daquela vida que teria de suportar e de que tanto já ouvira falar, quer em Portugal, quer em Nampula, quando soube ao certo o «buraco» que lhe havia calhado. Durante este ataque, não raras vezes se interrogou sobre as razões que o levaram ali, naquele momento, quando outros haviam optado pela França, Bélgica, Suécia e outras paragens... Sim, ele que se considerava suficientemente informado acerca desta guerra, como é que se deixara arrastar até ela.
O jipe que havia abandonado em pleno aldeamento, serviu no final do ataque como ambulância para transportar feridos.
Aquele camarada da «flat» não escondia o desânimo e a revolta que dele se apoderava. Estava para ser rendido, e não via forma de tal se processar. Mais tarde, algumas semanas depois, percebeu a razão porque era tão difícil sair de Mueda.
O seu substituto era um «coca-cola» – designação dada aos brancos moçambicanos – e como tal, tinha possibilidade de fazer demorar a sua ida para as frentes da guerra, mesmo que para tal tivesse de baixar ao hospital.
Desta forma, confirmava-se uma certa imagem que havia construído acerca de Mueda. Recordava agora, que já em Portugal lhe haviam dito que a percentagem de mortos no Norte de Moçambique era a mais elevada de todas, mesmo superior à que se verificava na Guiné.
Desta forma, Mueda apresentava-se-lhe como aquilo que era e que, em certa medida esperava: um local de guerra permanente onde a vida corre risco constante.Fora a estreia de fogo, sem dar um único tiro. «Que fazer» - interrogando-se olhando as estrelas. O decurso do tempo haveria de lhe mostrar que o homem é um «bicho» capaz de suportar, até à morte, as situações mais adversas; apesar daqueles que não as aceitam...

1 Comentários:

Blogger joaquim disse...

Olá camaradas de armas.
Também estive em Mueda várias vezes,mas só de passagem,no entanto sei de que buraco estamos a falar ,lembro-me perfeitamente que quando cheguei á guerra vindo de Porto Amélia de Nord atlas, a primeira coisa que eu vi ,foi o refeitório todo destruído e sem tecto e segundo informações tinha sido atingido por um míssil 122.
Um grande abraço a todos os ex combatentes.
FURR.MILIC.DIAS C,CAÇ-4153

8 de maio de 2010 às 11:53  

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