Histórias da CART 3503

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007 | 17:16

Heróis?! - 1



Na guerra, o tempo não passa, pára. Receber cartas, jornais ou revistas, responder às missivas dos pais e namoradas, jogar cartas, beber, conversar, jogar à bola, ouvir música, tudo serve mas nada chega para obrigar o tempo a correr, especialmente quando se está no aquartelamento.
Em Mueda, tornava-se terrível aguentar uma vida tão tensa, pela psicose do ataque iminente a que se estava sujeito, e ao mesmo tempo por uma existência que perdia sentido.
O capitão «chekinha», como lhe chamou uma mulher do aldeamento, ainda mal tinha iniciado a organização dos homens que lhe restavam daquela, ainda chamada «companhia macaca», e já, o comandante de operações exigia que preparasse homens para sair, a pé ou de «héli», para tentar uma emboscada ou, simplesmente, nomadizar à volta de Mueda. Estas exigências começavam a ser quase diárias. Mas, onde estavam os homens, em condições físicas, pelo menos, para responder às necessidades da guerra? O seu verdadeiro «calvário» estava a começar.
Estava-se no fim do ano, no derradeiro trimestre e, como era já tradição, iria assistir-se a uma forte ofensiva da Frelimo. Os homens com quem agora compartilhava a sua vida, encontravam-se na fase derradeira da respectiva comissão. No mês de Janeiro próximo, completariam 24 meses de comissão, sempre em Mueda, o que era inédito e acabou talvez, por ser caso único.
Para obviar à escassez de homens, a direcção da guerra, em Nampula, reduziu o número de militares hospitalizados, com «altas» (doentes considerados já clinicamente aptos) que obrigou um grande número a seguir para as respectivas frentes de combate onde se situavam as suas companhias. A «companhia macaca» com alguns militares nesta situação, também viu o seu número crescer com a chegada de meia dúzia de militares que se encontravam há alguns meses no hospital de Nampula.
Um de entre eles se destacava. Há cerca de 10 meses que havia sido evacuado e voltava agora, coagido pelas decisões daqueles que viam em cada homem, um militar pronto a sacrificar-se pela guerra. Foi o comandante de Batalhão, o mais directo superior hierárquico do comandante da companhia quem lhe anunciou a chegada próxima daquele alferes e sugeriu logo, que o deveria integrar activamente como qualquer outro militar na realização das operações que a companhia era constantemente chamada a efectuar. O capitão facilmente pôde compreender que o regressado não gozava das simpatias daquele comandante. E, quando um comandante não gosta de um subalterno... a vida deste será dura. Um comandante era um comandante, um subalterno um subordinado, esta a lógica para a hierarquia mais «dura».
Acontece porém, que este rapaz havia contactado já o novo comandante da sua companhia, quando este passara em Nampula, e entre ambos se estabeleceu um primeiro laço de simpatia. Simples, pouco falador, não deixou no entanto de alertar aquele que ia dirigir os homens que ele tão bem conhecia, e de quem falava com respeito e carinho. Principalmente, chamara a atenção do novo capitão para o facto de aqueles homens se encontrarem no limite do cansaço físico e psicológico, com necessidade de alguém que os apoiasse e defendesse, pois já chegava de sofrimento!
Este alferes revelava ainda no aspecto físico as marcas dos golpes que meses antes o atingiram. Ao contrário de outros, conseguiu resistir após luta prolongada contra a morte. O seu retorno a Mueda provocou uma forte onda de simpatia, quer entre os soldados, pois tratava-se do único alferes ainda na companhia após quase dois anos de guerra, quer entre os oficiais, com excepção do comandante de batalhão e um ou outro «responsável» pela condução da guerra.
Na messe, o mesmo médico que recebera à chegada o capitão, dirigindo-se-lhe então, em defesa dos homens que iam ficar sob a sua responsabilidade hierárquica, dispensava agora um grande abraço ao recém chegado, ao mesmo tempo que fazia recair sobre si as atenções dos restantes oficiais:
- «Este, vi-o entre aqueles a quem já não valia a pena socorrer... mas safou-se... » - e ficou meio espantado a olhar para ele.
Logo ali, e como era seu hábito, começou a clamar contra mais esta injustiça, agora, cometida sobre este rapaz.
- «Não está certo, voltares a esta merda!» – disse com o ar mais grave e sonante para quem o quis ouvir.
Numa pequena mesa, cartas na mão, os comandos «superiores» fingiam não escutar as «bocas» daquele médico […]

Continua aqui

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