Histórias da CART 3503

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

sábado, 12 de janeiro de 2008 | 01:10

A Primeira Mina


Eram 9 horas da manhã de princípios de Março de 1972, o Sol já ia alto e alguns de nós já tínhamos tirado o camuflado e era em tronco nu que caminhávamos picada fora, rumo ao Sagal. Era a primeira coluna a valer para a maioria de nós, pelo que todos íamos bastante tensos e apreensivos à espera da mina escondida ou da emboscada traiçoeira.
Com a temperatura a subir e a sede a aumentar socorri-me de uma cerveja 2M enquanto observava a picada até onde a vista alcançava, tentando adivinhar se já estaríamos perto do Chindorillo. Mas não tive sorte e voltei aos meus pensamentos, afinal o que estava ali a fazer a cerca de 13000 Km de casa, a defender não sabia o quê, colocando a minha vida em risco a cada momento e como se isso não bastasse sendo o responsável pela vida de cerca de uma centena de homens que me acompanhavam.
Bebi mais um golo de cerveja, agora, já morna, e tentei ser optimista, com um pouco de sorte daqui por umas horas estaríamos de regresso a Mueda, tomaríamos um belo banho, beberíamos umas cervejas bem frescas e sentar-nos-íamos a ler o correio que nos trazia as notícias daqueles que lá longe, no Puto, se preocupavam connosco.
Voltei novamente à guerra, onde cerca de uma dúzia de viaturas seguia lentamente pela picada, na primeira, um rebenta-minas, o condutor tentava desesperadamente pisar as pegadas que os picadores em bicha de pirilau iam deixando pelo caminho. O andamento era lento, demasiado lento para os nossos nervos, mas todos sentíamos que dependíamos da perícia daqueles homens, tanto os que procuravam as minas como os que tentavam conduzir aquelas viaturas, algumas das quais já deveriam estar na sucata.
Pé ante pé, rodado sobre rodado, era uma autêntica lotaria, só que ali não se tentava ganhar dinheiro, mas apenas não perder a vida.
De repente um grito “mina”. Dirigi-me para o local onde tinha sido detectada a mina, mas nesse momento o furriel da fox gritou que nos deitássemos todos ao chão, pois ele ia bater a zona. Ouvi então pela primeira vez o matraquear fortíssimo da metralhadora fox, cortando os ramos das árvores dum lado e do outro da picada numa extensão de várias centenas de metros, tentando dessa forma detectar alguma emboscada que por acaso estivesse preparada.
Quando terminou perguntei quem ia rebentar a mina e perante a falta de resposta conclui que como checa que era tinha cometido um erro, na coluna não seguia nenhum sapador. Como comandante da coluna não tinha alternativa, teria que ser eu, até porque já o tinha feito uma vez em Lamego, na especialidade, embora aí com uma mina a fingir. Assim, peguei na bolsa de sapadores, essa pelo menos não tinha ficado esquecida, e depois de mandar afastar toda a gente instalei-me junto da mina para iniciar o meu trabalho. Nessa altura chega junto de mim o Barreiros que diz que me vai dar protecção e ao mesmo tempo aprender como se faz para na próxima vez já estar preparado. Enquanto o Barreiros com a catana cortou o terreno à volta para verificar se não havia algum fio enterrado eu preparei-me para iniciar o meu trabalho. Fiz tal e qual como aprendera na instrução, cortei um bocado de cordão lento, cerca de 15 cm, o que dava para 15 segundos, peguei no alicate e no detonador, liguei o cordão lento ao detonador, até aqui tudo bem, coloquei o detonador no petardo e, agora já a suar por todos os lados e com as mãos a tremer entalei o petardo cuidadosamente junto à mina. Estava tudo preparado, já só faltava acender o rastilho, pedi os fósforos ao meu ajudante que até aqui se mantivera em silêncio e depois de acender um fósforo encostei-o ao rastilho que imediatamente brilhou e começou a arder. De imediato eu e o Barreiros começámos a correr e atirámo-nos para debaixo do rebenta minas esperando pela grande explosão. Passaram os 15 segundos, depois outros 15 e ainda mais 1 minuto, dois minutos e nada, algo tinha corrido mal e só havia uma coisa a fazer, ir novamente até à mina e tentar perceber o que se tinha passado.
E lá fomos novamente eu e o meu ajudante, agora com alguns curiosos atrás que queriam ver com os seus próprios olhos o que teria acontecido. Com o máximo cuidado aproximámo-nos lentamente e verificámos que não havia nenhum mistério, simplesmente o cordão lento que já era velho ardera apenas um bocado e apagara-se, por sorte não era cordão detonante, pois os checas tinham pegado no primeiro cordão que encontraram e foi esse que utilizaram.
Resolvemos começar tudo de novo e enquanto eu preparava o detonador e o petardo, o meu ajudante, já mestre, cortava um bocado de cordão lento agora bastante maior, cerca de 25cm e desfiava os lados do mesmo para que este pudesse arder nas melhores condições. Depois de tudo novamente preparado, acendemos o rastilho, esperámos um pouco para ver se ele não se apagava e como verificámos que estava a arder normalmente iniciámos nova corrida e abrigámo-nos debaixo do rebenta minas. De repente um estrondo enorme, pedras e areias a cair por todos os lados.
Olhei para a picada e um cogumelo elevava-se no ar e um cheiro diferente entrava-me pelas narinas, cheiro esse que me iria acompanhar muitas vezes e que fiquei depois a saber que era o que os velhinhos chamavam “cheiro a trotil“.
Tinha sido a minha primeira mina, mal sabia eu que no futuro não só eu, mas muitos dos elementos da companhia iriam rebentar dezenas, talvez centenas de minas, sem coletes de protecção, sem máscaras, sem televisões a filmar e principalmente incógnitos e sem o reconhecimento do país que para lá os mandou.

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3 Comentários:

Anonymous aim disse...

Os meus parabens pela magnifica descriçâo que nos é feita deste dificil e perigoso trabalho que é a desmontagem de uma mina, tantos medos, tantos sacrificios e tantos jovens marcados fisica e psicológicamente, a quem esta pátria teimósamente ignora

8 de novembro de 2008 às 13:53  
Blogger António disse...

Foi graças a essa experiência,enquanto "checas",adquirida pelos mais velhos da companhia, com o alferes, aliás, verdadeiro comandante da 3503, á frente de todos eles, que os futuros "checas", aqueles que como eu que foram em rendição individual, haveriam de beneficiar da dita experiência adquirida no mato, como é descrita, com todos os mêdos e subtilezas que o texto brilhantemente traduz.
Aqui fica o abraço e, acima de tudo, o agradecimento do
António P. Almeida, último capitão da CART 3503.

25 de setembro de 2009 às 16:42  
Blogger joaquim disse...

Olá camaradas de armas.
Fui furriel atirador com o curso de minas e armadilhas que tirei em tancos, e pertenci á C.Caç.4153 que esteve em Nancatari perto de Mueda.
Rebentei várias minas anti-carro e aanti-pessoal,não me lembro bem quantas mas sei que o dinheiro que recebi de prémio e que ficou nos 30 contos (antigos)gastei-os com os meus soldados brancos e pretos, em cerveja e tabaco.
Para finalizar quero vos dizer que apesar de ter ficado sempre muito nervoso quando procedia ao seu rebentamento (Medo porque não?)nunca senti tanto nervosismo,quando tive de rebentar o paiol da Companhia já depois do 25 Abril, e faze-lo por fazes, distante do quartel,pois senão destruia o mesmo, e os pretinhos da população ficavan sem ter onde viver.graças a Deus tudo correu bem e por isso cá estou eu aqui a contar-vos.
Um grande abraço a todos os ex-combatentes.
Furriel Dias C-Caç.4153-Nancatari

4 de maio de 2010 às 10:38  

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