Histórias da CART 3503

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 | 17:16

Mueda, a Palavra do Nosso Destino


Mueda, escrita com “u”, transformou-se, com o tempo, numa palavra mítica e/ou mística, para quantos por lá passaram, algures no Norte de Moçambique.
Mas, na realidade, Mueda, para nós, passou a deter uma existência muito real e jamais essa realidade deixou de nos acompanhar pela vida fora.
A primeira vez que ouvi alguém referir-se a Mueda, foi no ano de 1968, na Universidade. Um colega que cumpria já o serviço militar, colocado em Lisboa nos Serviços de Informação do Exército, contou-me que das três frentes de guerra que Portugal mantinha, Angola, Guiné e Moçambique, aquela que causava maior número de baixas era a de Moçambique, devido à luta que se travava na região de Mueda.
E, foi exactamente na universidade que voltei, meses depois, a ouvir referenciar, de novo, a palavra Mueda. Era a época dos exames, em plena Crise de 1968/69, estava eu integrado num piquete de greve, procurando impedir o acesso às instalações onde deveriam decorrer as provas, daqueles que pretendiam furar a greve.
Entre estes havia um estudante, forçando a entrada, empurrando e gritando, juntamente com outros estudantes, quase todos trabalhadores-estudantes, dizendo que vinha de propósito de Mueda, onde exercia funções administrativas, para realizar aquele exame, e iria fazê-lo custasse o que custasse.
Só muito tempo depois haveria de escutar novamente alguém a referir-se a Mueda. Foi em Stª Margarida, já em 1973, onde me encontrava a preparar a minha companhia com destino já conhecido, Omar, em Moçambique. Apresentou-se para passar à disponibilidade um oficial, vindo de Moçambique, que foi alvo da curiosidade de todos os oficiais que se encontravam a formar o Batalhão, que já sabia destinar-se àquela região e, a minha companhia, já sabia que ia para um buraco chamado Omar. Às minhas interrogações disse que nunca havia estado lá, mas havia passado por Mueda, mais, tratava-se de uma zona de “porrada” mais ou menos permanente.
Alguns meses se passaram, a preparação da companhia com destino a Omar lá continuava, até que tive um acidente de automóvel quando me encontrava a gozar a licença de 10 dias de que todos beneficiávamos aquando da mobilização para a guerra. Fui hospitalizado e, de seguida, substituído no comando da companhia. Foi assim que disse adeus a Omar, sem nunca lá ter sequer chegado.
Esses militares partiram para África em Agosto de 1973 e, eu, por cá fiquei a guardar ordens e destino.
Cerca de dois meses depois, chegou a minha vez. Embarquei para Moçambique, também, sem conhecer o destino operacional. Fui em rendição individual.
Somente na cidade da Beira, em Moçambique, é que tomei conhecimento, através da “guia de marcha” respectiva, que o meu destino final era Mueda.
Já no avião, lá bem nos primeiros lugares, como calhava aos oficiais, encontrei alguns que regressavam de férias. Procurei obter alguma informação sobre a zona onde estaria esta Cart 3503. Somente um daqueles oficiais sabia que se tratava de uma companhia que estava sediada algures “lá para cima”.
Fiquei, desde logo, a saber que a referência “lá para cima”, significava zona de “porrada”. Mas, na prática, fiquei a conhecer o mesmo que já sabia, isto é, nada de concreto sobre o meu verdadeiro destino.
A chegada a Nampula aconteceu já de noite. Só no dia seguinte, no bar da messe de oficiais, viria a tomar conhecimento, através de quem bem a conhecia, a zona que me foi atribuída.
Foi aí, em Nampula, que conheci o primeiro militar da 3503, nada mais, nada menos, que o, então, alferes Silvestre, que se encontrava no hospital, a quem ouvi, pela primeira vez, referências sustentadas acerca da companhia que me fora destinada na Beira.
Praticamente ao mesmo tempo, encontrava-se na messe um capitão, também com baixa no hospital, o Franklim. A sua reacção, quando se apercebeu que eu iria para Mueda, e para a Cart 3503, começou, quase gritando, “fuja homem, fuja!”, conheço muito bem o buraco para onde o estão a enviar.
Já de posse de alguns dados, transmitidos pelo Silvestre, lá parti para Porto Amélia, última etapa, antes de rumar a Mueda.
Em Porto Amélia, enquanto aguardava transporte para percorrer a última etapa desta viagem, conheci, na messe, um alferes que estava em Mueda, o Raul Carregoso, responsável pelo material auto do Batalhão. Como é evidente, fiquei a conhecer mais alguns pormenores acerca do local do meu destino.
Passados uns dois dias foi o embarque com destino a Mueda.
Finalmente a chegada à “terra prometida”.

Lisboa, 24.09.2009

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