Histórias da CART 3503

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

domingo, 11 de setembro de 2011 | 21:41

Crónica de uma operação falhada


Mueda, Moçambique. São quatro da manhã, terça-feira, dia 21 de Março de 1972. O Raimundo acorda, desliga rapidamente o despertador. Senta-se na cama e lentamente roda-se e coloca os pés no chão. Calmamente levanta-se vai até à casa de banho onde faz a sua higiene matinal e volta para o quarto e aproveita para chamar o Cristo, o Vences, o Ribeiro e o Ventura, dizendo-lhes que está na hora de por a pé. Na outra flat, àquela hora levantavam-se, igualmente, os Furriéis Caseiro, Silvita e Bastos.
Enquanto os colegas tratam da sua higiene matinal o Raimundo pega na sua mochila e confirma que está tudo em ordem. Pega depois no bornal donde retira uma embalagem de leite achocolatado e aproveita para tomar o seu pequeno-almoço composto desta embalagem de leite e de uma sandes de queijo. Queijo que ainda restava da remessa que tinha levado aquando do embarque em Lisboa em Janeiro. Após este repasto, olha minuciosamente os carregadores, repletos, mete-os nas cartucheiras que coloca à cintura, mochila às costas, bornal preso ao cinturão, tal como o cantil e G3 na mão. Diz até já aos seus camaradas, caminha em direção à Companhia, mais propriamente à caserna onde os soldados dos três pelotões se começavam a preparar para mais uma operação.
A operação em causa era nem mais nem menos do que o assalto à base Nampula e tinha como objectivo a captura dos morteiros que o In ali dispunha e com os quais fustigava inusitadamente as nossas tropas. Tinha sido no dia anterior cerca das quatro da tarde que o Capitão Azevedo tinha chamado o Raimundo ao seu gabinete em que lhe disse “amanhã vamos para uma operação de dois dias, vamos levar os homens disponíveis, pelo que chame todos os graduados dos 3 pelotões e encontramo-nos todos às cindo da tarde aqui. Entretanto, verifique na arrecadação com o Aníbal as rações de combate e ele que vá preparando as necessárias para distribuição”. Assim foi feito. O Raimundo tratou de passar a palavra aos outros furriéis para que estivessem no gabinete do Capitão às cinco e foi até à arrecadação dizer ao Aníbal que preparasse cerca de 200 rações de combate para distribuição depois do jantar.
A reunião em causa serviu para o Capitão fazer o ponto da situação e para atribuir tarefas sendo que cada um dos participantes conhecia perfeitamente o que tinha a fazer. Diga-se que por razões que a guerra ditou a Companhia apenas dispunha de três oficiais, o Capitão, o Alferes Silvestre e o Alferes Barreiros. Assim, tinha sido acordado que em cada operação que se desenrolasse apenas participaria um oficial, o qual seria coadjuvado pelos furriéis dos pelotões envolvidos em casa operação. Calhou desta vez a sorte ao Capitão Azevedo, o qual depois de explicados os contornos da operação e como presumivelmente se desenrolaria deu por encerrada a reunião sem que antes dissesse ao Furriel Raimundo para ficar porque necessitava de articular com eles alguns dos aspectos focados. Acontecia que o Furriel Raimundo era o mais antigo de todos os furriéis operacionais pelo que na presente operação seria ele o substituto do Comandante sendo necessário tomar conhecimento de todo o plano operacional para fazer face a qualquer eventualidade. Foi isso que aconteceu, tendo o Capitão explicado detalhadamente alguns pormenores que não tinham sido “públicos” na reunião.
Cerca das quatro e quarenta e cinco minutos da manhã, num breve encontro do Capitão e dos oito furriéis presentes recapitulou-se tudo o que era necessário fazer, após o que cada um dos furriéis se dirigiu ao seu grupo de combate tendo em vista a partida para a operação, sendo que a Companhia seria autotransportada cerca de cinco quilómetros. Tudo em ordem, viaturas prontas, pessoal acomodado nas berliets. Foi dada ordem de partida quando a manhã começava a raiar.
A viagem dos cerca de cinco quilómetros demorou cerca de meia hora, tendo terminado junto do antigo posto da água XXX, sendo o restante percurso feito a pé. Saltar das viaturas, ter cuidado onde pisar e preparar para a arrancada a qual iria ser feita pela mata já que não era seguro seguir picada. Toda a gente ainda tinha bem presente a mina que havia, cerca de 3 semanas antes, ali bem perto, ao lado daquela mesma picada, esfacelado o pé do Cabo Correia, pelo que o cuidado, a atenção e por que não dizê-lo a tensão eram evidentes. Cerca das seis da manhã, inicia-se a marcha pela mata, em fila de pirilau ou indiana como era hábito chamar-se, esticando ou encurtando consoante a fisionomia do terreno que palmilhavámos, com o pelotão do Furriel Raimundo à frente. A manhã estava fresquinha e o orvalho existente na vegetação ia penetrando pelo camuflado, mas o sol começava a raiar tornando aquela caminhada silenciosa em algo surreal, pois ninguém dizia fosse o que fosse, e a coluna movimenta-se como sombras ora mais rápida em campo aberto ora mais lenta em zona densamente arborizada ou com muito capim. Cerca das sete da manhã a coluna parou. Que aconteceu, perguntam lá de trás, nada, responde-se da cabeça da coluna, apenas temos um milheiral pela frente. O Tubarão, elemento que seguia na cabeça da coluna ao sair de uma zona arborizada depara-se com uma plantação de milho de grande extensão e parou. Chamou o Raimundo à frente o qual observou o milheiral que teria forçosamente mais de dois metros de altura e concluiu que o melhor para seguir em frente era atravessar a plantação, solução que foi aprovada pelo Capitão e a marcha seguiu. A companhia esteve toda dentro do milheiral e cerca de 100 homens em fila indiana ainda representam uns bons metros podendo-se aquilatar por aqui a extensão daquela plantação. À medida que iamos avançando no atravessamento do milheiral começamos a distinguir uns sons os quais estavam cada vez mais próximos e que eram nada mais nada menos do que vozes de homens conversando animadamente. Feita a respectiva transmissão para a traseira da coluna, no sentido de haver o máximo cuidado e evitar todo e qualquer barulho fomo-nos aproximando do fim do milheiral. Quando a cabeça da coluna aí chegou, Raimundo e Tubarão pararam, agacharam e mediram a envolvência. A mata desenrolava-se novamente a cerca de cinco-dez metros do fim da plantação do milho, pelo que haveria de se ter o maior cuidado na travessia do campo descoberto. À esquerda do local onde atingimos a orla do milheiral havia uma espécie de banca, com alguma dimensão, repleta de abóboras e outros produtos agrícolas que certamente estavam ali a secar. As vozes ouviam-se mais para a esquerda dessa banca, mas deveriam estar a uma distância relativamente curta tal a nitidez com que se chegavam até nós.
Com o máximo cuidado mas também com a rapidez possível numa situação daquelas embrenhamo-nos na mata tendo toda a coluna feito a transposição sem qualquer problema. As vozes iam agora desaparecendo aos poucos e poucos. E também pouco a pouco a companhia foi avançando na mata rumo ao objectivo. O sol começa a apertar e o ritmo da marcha abrandava um pouco. Perto da oito da manhã chegamos ao local onde em tempos, por altura da operação Nó Górdio, tinha estado estacionada uma bateria de artilharia, pelo que aproveitando o local, foi dada ordem de paragem para descansar. O pessoal espalhou-se pelo terreno, aproveitando os “buracos” dos obuses ou estendendo-se ao longo de um trilho que ali passava, e enquanto uns apenas descansavam outros comiam, outros dormiam ou pelo menos tentavam e outros ainda, escondendo-se nas traseiras de qualquer árvore ou arbusto ali existente satisfaziam as suas necessidades fisiológicas. O local onde tinham estacionado os obuses era, como não podia deixar de ser, uma clareira, onde apenas alguns arbustos e capim tinham crescido naquele espaço, pelo que dada a sua largueza foi aproveitado pelo Capitão e pelos furriéis para fazer uma breve “reunião” tendo em vista o ponto de situação, finda a qual cada um voltou à sua posição.
São cerca das dez da manhã. De repente ouve-se um burburinho e alguém grita “fogo”. Todo o mundo no chão, arma aperrada e toca a apertar o gatilho. A coisa durou alguns segundos até que alguém novamente grita “pára”. A guerra tinha parado. O Raimundo foi lá à frente saber o que tinha acontecido e pasme-se. Então mesmo ali ao nosso lado, no trilho que desembocava na clareira, à sombra duns arbustos, dormia um caçador, que ao despertar da sua soneca deparou com a rapaziada ali mesmo à sua beira e não olhando para trás iniciou uma corrida deixando ali a prova da sua presença, um saco feito de pele de um animal, possivelmente gazela, o seu arco e a sua flecha. Apesar do tiroteio que se desencadeou o caçador conseguiu escapar ileso. O Bastos, fez seu o material abandonado e treinou o tiro com arco.
Estávamos detetados quer pelo caçador quer pelo tiroteio. Havia que sair dali o mais rápido possível, tanto mais que o local estava certamente referenciado. Mapa na mão, traça-se o caminho. Seguir o trilho por onde o caçador seguiu. Era uma antiga estrada de terra batida que certamente teria servido de acesso a qualquer fazenda que por ali existiu noutro tempo. Dela apenas restava operacional um trilho, com alguma largura, bem pisado, limpinho, o que evidenciava a sua grande utilização. Companhia em posição de marcha, bicha de pirilau e aí vamos nós com a máxima atenção mas também com uma vontade enorme de nos afastarmos do local onde tinhamos sido detetados. Cerca das onze horas da manhã, bum, bum, bum, ao longe e instantes depois ouvíamos por cima de nós o silvo caraterísticos das granadas de morteiro a passar para cairem pouco tempo depois na zona onte tinhamos estado parados. A morteirada continuou durante cerca de uma hora, sempre da e na mesma direcção. Nós continuamos a caminhada e por volta da uma e meia da tarde, com um sol abrasador, chegámos a uma zona de árvores frondosas, relativamente dispersas, pois no meio fazia uma clareira de alguma dimensão. O Capitão deu ordem de paragem e colocação em posição defensiva. Um grupo, de quatro militares ficou a emboscar o trilho, três ou quatro grupos de três a quatro sodados ficaram de vigilância enquanto os restantes debaixo das árvores e encobertos pelo capim e arbustos ali existentes aproveitavam para comer e descansar. O silêncio era quase absoluto. Estavamos tão dissimulados que a passarada não nos ligava e fazia as suas cantorias. Apenas os sons destes seres se faziam ouvir. Apenas, não é bem assim, porque de meia em meia hora, mais minuto menos minuto ouvia-se “choc”. Era mais uma lata de laurentina que o Capitão acabava de abrir. Seguia-se o mais absoluto silêncio até nova abertura da lata de cerveja, fazendo juz à publicidade da dita “todas as horas são horas de beber uma Laurentina”, lembram-se?
E aqui estávamos nós à espera da hora para nos aproximarmos do alvo quando, de repente uma barulheira e uma correria com uma grande agitação. Tinham entrado dois guerrilheiros na zona de morte da emboscada. Os dois soldados que tinham os guerrilheiros na mira vêem as suas espingardas encravar e quando tentam que os outros atirem fazem barulho e os emboscados com três cambalhotas desaparecem da mira dos nossos soldados. E agora? Olhamos para o relógio e estamos perto das quatro horas da tarde. O Furriel Raimundo vai junto do Capitão e diz-lhe “Meu Capitão, é melhor sairmos daqui.” “Para onde?” retorquiu-lhe o Capitão. “ Para a frente, para trás, para a direita ou para a esquerda, para onde o meu Capitão quiser, aqui é que não podemos ficar, pois eles sabem exactamente onde estamos”. “Deixe estar aqui” sentenciou o Capitão.
O Capitão Azevedo continuava imperturbável. Choc, fumar mais um cigarro, abrir e beber mais uma cerveja, como se nada estivesse a ou para acontecer. O Furriel Vences, várias vezes foi junto dele pedindo-lhe para sairmos dali, mas nada havia que demovesse o Capitão da nossa estada em tão frondoso local. O tempo foi passando e um generalizado mal estar foi-se apoderando de todos. Mais uma vez o Raimundo foi junto do Capitão tentando que ele tomasse uma decisão. Sair dali. Mas nada. Mais um cigarro, mais uma cerveja e tudo bem.
Cinco e meia da tarde. O dia começa a esconder-se. O pessoal estava cada vez mais nervoso. “Choc”. Nisto, ali bem perto, “PUUUM”, “PUUUM”, “PUUUM”, “PUUUM”, todo o mundo a remexer-se e a ficar na expetativa de ver onde é que elas iam cair. Começaram a cair à nossa beira, ali bem perto. O Furriel Raimundo, olha para o Capitão e este diz-lhe Raimundo, vamos, para o local onde estivemos de manhã. O Raimundo preparou o seu grupo de combate, pôs o pessoal em posição de marcha, pediu para verem atrás se estava tudo pronto para seguir, responderam pela positiva e deu ordem de marcha colocando-se à frente da coluna. Caminhados alguns metros vem palavra de trás dizendo que os outros grupos não estavam a andar nem à vista. As morteiradas continuavam a seguir. Parar, disse o Furriel. Toda a gente se agachou no trilho como que a protejer-se das granadas que ali perto continuavam a cair com alguma intensidade. Através do radio AVP1 o Raimundo tentou o contato com o resto da companhia mas nada. Quando nos preparávamos para retroceder eis que aparece o resto da coluna a juntar-se ao grupo da frente. Confirmado que estava toda a gente, iniciamos a marcha utilizando o trilho por onde tinhamos avançado de manhã, fazendo agora o percurso inverso. Lá para trás, cada vez mais longe, as morteiradas continuavam a cair. Fizemos toda a caminhada já no escuro tendo atingido o local onde o caçador dormia, perto das sete da noite. Ali chegados o Capitão Azevedo deu ordem de “acampar”. Íamos passar ali a noite.
Aproveitando o arranjo do terreno, era quase um quadrado, os diversos grupos de combate tomaram posição de modo a assegurar a cobertura completa do mesmo. Instalados e montadas as respectivas seguranças, foi a vez de jantar e adormecer. Durante toda a noite a festa continuou lá atrás. Dezenas de morteiradas cairam por ali. De manhã, bem cedinho, tornou a haver fogo de artifício. Felizmente, para nós, eles convenceram-se que não tinhamos saído da zona da emboscada. Recordo que o local foi abonado ao cair da noite, hora imprópria para deslocações na mata.
Passámos a noite sem outros sobressaltos que não fossem os rebentamentos lá longe e um ou outro “choc” até perto da meia-noite.
Ao romper da manhã ficámos a pé. Logo que possível o Capitão contatou o Comando em Mueda o qual decidiu que face ao termos sido detetados o melhor era dar a operação por terminada, dando ordem de regresso ao quartel. Perto das oito da manhã, iniciámos o regresso, tendo feito a pé o percurso até ao cruzamento da picada Muera-Nangololo, local onde fomos recolhidos por viaturas que ali se deslocaram para o efeito.
Durante essa curta viagem, fomos brindados pela artilharia que disparou com alguma intensidade os seus obuses para posição atrás de nós, pelo que as granadas passavam por cima de nós deixando-nos o seu impressionante e enervante silvo. Desconheciamos a razão de tal bombardeamento. Soubemos quando chegámos ao quartel que a razão tinha sido um avião NordAtlas que havia sido atingido pelos guerrilheiros quando voava a baixa altitude, tendo resultado a morte de um oficial de artilharia que viajava nesse avião.
Perto das catorze horas chegámos ao quartel com alguma frustação. Saltar das viaturas, formar, efectuar as normas habituais de segurança como seja tirar a bala da câmara puxando a culatra atrás. Costuma-se dizer que não há duas sem três. Tinha-nos fugido o caçador debaixo dos nossos olhos, encravaram-se as espingardas quando tinhamos o alvo debaixo de mira, que mais nos havia de acontecer? O Tubarão e o Araújo ao efectuarem aqueles procedimentos de segurança vá lá saber-se porquê, dispararam a arma. Bum, bum.
O Capitão Azevedo fica fulo, mas mais fulo iria ficar quando foi chamado ao Major “Calcinhas” para explicar porque razão as armas disparam quando não devem e encravam quando devem disparar.
Todo o pessoal foi tomar banho e depois almoçar o que ainda lhe restava da saborosa ração de combate que lhe havia sido distribuida. Perto das quatro horas da tarde o Capitão chama o Furriel Raimundo e diz-lhe que reúna imediatamente toda a Companhia na parada recomendando que cada um se apresentasse com a arma que lhe estava distribuida. Assim foi feito. Companhia, ou melhor os três grupos de combate formados na parada é dada a ordem de marcha a caminho do fundo da pista de aviação. Lá vamos nós, um, dois, esquerdo, direito, um, dois, um, dois. Quando chegamos ao lado da pista de aviação é dada ordem de corrida, a qual se mantém até ao fundo da pista, mesmo ao fundo. Lembram-se que a pista ainda era grande e depois dela ainda havia um grande espaço até à ribanceira que dava para o Vale Miteda? Lá bem ao fundo é dada ordem de parar. Recordo que já havia uns atrasados em especial os que transportavam metralhadoras e morteiros. Grupo reunido e palestra do Capitão. Compreende-se. Regresso em passo de corrida até à Companhia, o pessoal já vinha de rastos. Tinha saído no dia anterior às cinco da manhã, percorrido toda a caminhada da operação nas condições em que a mesma se desenrolou e agora uma corrida que ida e volta deve medir uns bons cinco quilómetros, não é brincadeira nenhuma. Chegados ao quartel, formatura e informação que amanhã às nove da manhã, novamente ali formados e devidamente equipados. Estava em perspectiva nova corrida até ao fundo da pista.
Diz-se que o sono é bom conselheiro. No dia seguinte de manhã, antes do pessoal formar, o Capitão chamou o Furriel Raimundo e diz-lhe, “Já chega de castigo, não acha?” “Acho sim, meu Capitão”, respondeu-lhe o Raimundo. “Mande os homens embora”. Assim foi feito.
Não sei porquê, mas o relatório desta Operação não consta da história da Companhia. Mas porque aconteceu e a maioria dos seus intervenientes estão vivos e se recordam dela, é bom lembrá-la nem que seja como o episódio de guerra que se poderia chamar “Armas que encravam quando devem disparar e disparam quando não devem”.


Escrito 39 anos depois dos acontecimentos.

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