Histórias da CART 3503

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

quarta-feira, 3 de março de 2010 | 17:31

O Rapaz de Aveiro


Estávamos em Janeiro de 1971, provavelmente nos cruzamos na parada, ou no bar dos recrutas do R.I.7 em Leiria, até os nossos pelotões, quem sabe, se cruzaram, só que eu passado três semanas segui para as Caldas da Rainha para o curso de sargentos e ele lá ficou.
Passados vários meses e ainda no ano de 1971, só que agora no mês de Novembro já em Viana do Castelo, de vários rapazes que nos foram apresentados lá estava o rapaz de Aveiro, que era um dos quatro enfermeiros que iam fazer parte da CART. 3503.
Em Fevereiro de 72, chegados a Moçambique, precisamente a Mueda o rapaz de Aveiro foi colocado no meu pelotão. Das constantes saídas para a picada e para o mato, que nos deu a conhecer a maravilhosa beleza do planalto de Miteda, mais conhecido pelo planalto dos Macondes, nasceu uma amizade – não uma amizade de estarmos todos ali a defendermo-nos uns aos outros – mas aquela amizade que permite partilhar os bons momentos e desabafar os maus.
No mês de Maio de 72 fui evacuado para Nampula por motivos de saúde e no período que estive no H.M.N. até á 3ª semana de Junho, muitos azares teve a CART. 3503. Tivemos mortos e feridos graves, de entre eles o nosso autor do Cacimbo, que foi ferido gravemente. Hoje ainda recordo aquele dia em que estava no Hospital com a noite a entrar, quando se ouviram os hélios a fazerem-se ao heliporto do Hospital Militar de Nampula e as ambulâncias para lá a dirigirem-se, até que ouvi alguém dizer: "São de Mueda da 3503." Foi uma punhalada que senti no coração, corri para a entrada das urgências para tentar ver alguma coisa, mas ali nada vi, corri tudo que me foi possível, até que na enfermaria dos sargentos através da janela da porta o vi a ser transportado pelos soldados maqueiros de um lado para o outro, sem saberem em que cama o iriam deixar, estando todo nu, com a perna onde foi ferido gravemente a baloiçar. Estava a passar por uma nova situação na sua vida, e com a qual,por certo ainda não sabia como lidar.
Voltei-me para trás porque não me deixaram entrar, quase com as lágrimas a rebentarem, mas ali não podíamos chorar porque dávamos parte de fracos, caminhei um pouco e quando voltei para espreitar de novo e tentar falar com ele, ele já lá não estava, porque não era para aquela enfermaria que tinha que ir mas sim para os Cuidados Intensivos.
Regressado a Mueda logo no dia seguinte fui heli-transportado para Muera onde estava a decorrer uma grande operação. Se à ida para lá tivemos bastantes azares, no regresso, no que respeita a feridos nada tivemos, embora uma viatura tivesse rebentado uma mina anti-carro. O que é certo, é que correu muito bem, comparado com a ida, não pelo facto de eu lá estar, ou quem sabe, talvez sim. Porque é que digo isto? É que passados estes anos todos cheguei à seguinte conclusão: enquanto estive activo em Mueda só tivemos dois feridos graves, o primeiro logo no princípio, éramos chequinhas, e o segundo e último da companhia, já velhinhos e no mata-bicho.
Os restantes feridos graves, tal como os mortos foram todos na minha ausência quer quando estava em Nampula quer nos períodos de férias em que me ausentei de Mueda.
Durante estes períodos não sei qual foi a actividade do rapaz de Aveiro que era enfermeiro, com a missão de socorrer os companheiros, o que eu sei é que era um rapaz muito seguro de si, mas algo de estranho começou a passar-se com aquele rapaz, recordo-o a refugiar-se na leitura, não deixando de ser um bom camarada de guerra.
Chegou o dia em que foi graduado em Furriel, passando a ser um atirador e não um enfermeiro. Se bons amigos éramos enquanto ele era enfermeiro mais amigos ficámos agora que tínhamos o mesmo posto e que partilhávamos um quarto na flat dos Furriéis.
Com o tempo a não querer passar, onde se contavam os minutos e segundos que faltavam para sairmos de Mueda, à noite refugiávamo-nos na escrita para a família e madrinhas de guerra que se arranjavam através da revista plateia. Só que naquela noite o rapaz de Aveiro disse-me: "Hoje vai ser para a leitura, bebida e tabaco, queres acompanhar-me?" Eu respondi que não, o mais que podia ser era fazer-lhe companhia enquanto escrevia para a família e madrinhas de guerra, mas que quando acabasse iria dormir.
Entre ler e escrever a coisa deu até à uma da manhã, mas para ele não era nada pois que já tinha destinado que naquela noite iria meter abaixo nada mais nada menos que uma garrafa de brandy 1920, acompanhado com tabaco e alguma leitura.
Infelizmente, mais algumas vezes repetiu esta dose, porque para este rapaz esta era a única hipótese que via para sair daquele inferno em que vivíamos.
Este rapaz de Aveiro que numa noite bebia o conteúdo de brandy de uma garrafa de 0.75 e só se deitava quando via a garrafa vazia não tinha mais que 22 ou 23 anos.
Era para isto que os senhores da guerra nos roubavam às nossas famílias, para morrermos com um tiro, com uma mina, ou então para morrermos aos poucos com os maus tratamentos que dávamos ao nosso corpo quando estávamos na flor da nossa idade, porque o nosso pensamento era que mais dia menos dia, podia chegar o nosso dia…
E assim iríamos consolados.

1 Comentários:

Blogger Alves da Costa disse...

Comentar este texto remete-me para o passado, aquele que tanto esforço fiz e faço para ultrapassar e esquecer.
Quando a vivencia foi tão má, o melhor que podemos fazer é “desligar da memória”.
Temos relatos que são conhecidos, aqui documentados de uma CART 3503 a que pertenci durante muito pouco tempo , até à minha transferência para CCS em Nangade.
E se a vivencia em Mueda não foi fácil, pequena vila que era já na altura, Nangade passou a ser um indescritível “buraco” no meio do nada o quase nada que eramos nós, com raízes assentes num rectângulo de terra descampado, mal amanhado, sem hipótese de sair do perímetro do campo de minas cercado de arame farpado, onde não havia um China ou um Santos, mercearias do “tem tudo” para desconsolo, como me acostumara em Mueda.
Não só não tinha mercearias como em Mueda.
Nangade, não tinha escola de condução, nem o luxo de “Flates”, para oficiais ou furriéis, nem igreja , nem hospital, nem base de aviação, menos ainda a possibilidade de o chão ser pisado por algum civil, não os havia , não tínhamos a vantagem de ser temidos pela presença de uma força aérea estacionada como na vila de Mueda.
Nangade, foi o buraco, dentro da terra quando “chovia” ataque de morteiro e míssil, mais airoso buraco de dia quando podendo olhar o céu nos sentíamos circunscritos ao nada que havia, e nos rodeava, ao nada que poderia ser feito ao longo dos intermináveis anos que ditaram a nossa permanência mergulhados num ambiente de medo colectivo.
O golpe de mão ao pequeno aquartelamento perdido no mato, a dias de distancia por picada minada quase intransponível até á localidade mais próxima, que sem uma demorada missão de limpeza de minas nos interditava a um acesso impensável, onde ousar percorrer por qualquer razão desesperada, seria o fim de muitos dos seus elementos foi cenário presente na nossa mente constituindo a consciência do nosso temor e intranquilidade.
Olhos bem abertos, reagir , resistir e esquecer, foi o lema de vida dos quase dois intermináveis anos mergulhados ali, o pior seriam sempre as noites porque em caso de ataque só de manha ao alvorecer teríamos apoio aéreo, e ate la tentarmos ser capazes de resistir.
Curiosamente de Nangade dos nossos, também eles colegas, do mesmo batalhão, não consta relato, nem imagens nem queixas .
Talvez lhes reconheça a razão, e perceba que, talvez na receita do esquecimento, resida a melhor lembrança daquele tempo.
Alves da Costa
CART 3503
CCS BART 3876

4 de maio de 2012 às 21:59  

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