Histórias da CART 3503

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

domingo, 24 de fevereiro de 2008 | 17:59

Heróis?! - 2


Continuação daqui

Numa pequena mesa, cartas na mão, os comandos «superiores» fingiam não escutar as «bocas» daquele médico feito «major», que os «operacionais» tinham como grande amigo.
A proximidade da época natalícia, e do fim do ano tornavam o ambiente ainda mais tenso que o normal. Toda a companhia preparava a sua festa de Natal. A «Companhia Macaca» com um pinheiro, símbolo clássico lá longe, na terra, e a que os soldados africanos aderiam, colocado no meio da caserna, criou o ambiente possível para esquecer, ou pelo menos, tentar amenizar as saudades, uma vez mais, exactamente naquela que é por todos considerada a festa da família.
Todos falavam na esperança do regresso breve, pois nos primeiros dias do ano novo, a comissão de serviço chegava ao fim. Ao mesmo tempo, não se conseguia esquecer «aquele que dormia naquela cama», e o outro «que ficava aqui junto da árvore de natal», ambos tombaram nesta maldita guerra; e outros que tiveram de regressar mais cedo, com marcas físicas, para sempre. E a hipótese, quase realidade, de algum ainda vir a cair no tempo de serviço que ainda restava cumprir.
Os comandantes sentiam a tensão vivida à sua volta. Havia que combater. Intensificavam-se as saídas de grupos de combate para o mato, uma das formas de aproveitar a agressividade que em certos momentos mais se apoderava dos soldados. Por outro lado, iniciaram-se os preparativos para organizar um festival de Natal. Falava-se na vinda de cantores e músicos.
Uma operação de envergadura de apoio a uma coluna logística que vinda de Nampula e se destinava lá bem ao Norte – Mocimboa do Rovuma – deveria ser comandada pelo capitão desta companhia, a partir de Mueda. Mais de 50 viaturas, entre militares e civis, transportando abastecimentos e material diverso, com o empenhamento de mais de uma centena de homens.
Á medida que os dias de Dezembro se iam sucedendo, a coluna aproximava-se de Mueda e por isso iniciavam-se os preparativos para a receber, e depois levá-la até ao seu destino. Estas colunas, eram o grande drama daqueles que passaram por Mueda e que nelas tinham de participar. Raramente conseguiam chegar ao destino e voltar com o mesmo número de homens que as iniciavam. As baixas, pelos ataques que sofriam ao longo das picadas, e principalmente, os efeitos das minas, antipessoais ou anticarros, marcavam quantos nelas participavam. A tensão vivida em Dezembro era reforçada pela realização desta coluna.Para o capitão, seria a primeira saída «a sério» para o mato. As interrogações acerca do que o esperava eram amenizadas com o conjunto de tarefas a que tinha de responder, desde a escolha dos homens que o acompanhariam, os materiais de guerra que importava levar, as viaturas militares necessárias, etc. etc.

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quinta-feira, 17 de maio de 2007 | 15:07

Não me Atirem Flores


Não me atirem flores
Tenho uma arma na mão
Estou com muitas dores
E um aperto no coração

Com esta arma matei
Ao lado dela dormi
Com ela por vezes não respirei
Como também muito sofri

Hoje olho para trás
E muitas coisas recordo
Não sei como fui capaz
De sair dela sem ser morto

Por vezes para a Lua olhava
E ao seu lado estrelas via
Muitas vezes sonhava
Com aquilo que fazia

Foram bons e maus momentos
Se passaram na c.cart.3503
Recordo alguns sofrimentos
E dos grandes amigos que nos fez

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quinta-feira, 12 de abril de 2007 | 01:43

Prefácio

De Penafiel a Mueda, do Tejo ao Rovuma, do lar ao fim-do-mundo, da inocência ao inferno se fez a história da Companhia de Artilharia 3503.

Cada um dos seus homens tem muitas histórias para contar, trazem-nas consigo há muitos anos; alguns querem guardá-las em silêncio consigo, como algo de íntimo e intransmissível, por acharem que uma vez verbalizadas se tornariam banais, e os sentimentos que lhes estão associadas desbaratados por quem não sabe o que significou negociar com a Morte dia-a-dia de arma na mão. Hoje as guerras são espectáculo de fogo-de-artifício, em directo na televisão, que é visto à hora do jantar no recato do lar, como qualquer reality-show, e a comparação da guerra que conhecemos com esse espectáculo seria degradante para as nossas memórias. É por isso que devemos respeitar os que optam pelo silêncio.

Este blog foi criado para os que não optaram pelo silêncio. Nele caberão todas as palavras que os veteranos da Cart 3503 ainda trazem consigo, mas não tenhamos ilusões; as palavras não são os factos e nem sequer os sentimentos; são apenas códigos de comunicação com que temos a ilusão de dizer a verdade, e não haverá dois de nós a dizer a mesma coisa do mesmo modo. É por isso que devemos respeitar os que optam por dizer o que pensam.

Outros, por ventura, optarão por retratar os sentimentos, assumindo a inutilidade de tentar repetir a realidade, aceitando o papel da memória que umas vezes censura outras vezes interpreta a informação modificando-a; a ilusão aqui não é menor, é apenas assumida. É por isso que devemos respeitar os que optam pela ficção ou pela poesia.

Foram repostos os textos do Silvestre, do Caseiro e do Almeida que eu já tinha publicado no meu blog "Outros Testemunhos", bem assim como os comentários dos visitantes.

Para agilizar a publicação dos textos e para garantir alguma organização, encarregar-me-ei de administrar o blog, garantindo que não existirá qualquer censura ou truncagem do que me for enviado para publicação.

Só não haverá lugar à calúnia, à pornografia e à mentira maldosa; porém a indignação, a sensualidade e a fantasia serão bem-vindas; que nenhuma palavra até hoje reprimida fique por dizer, nenhuma acusação justa por fazer, e que o perdão, que é a vingança dos magnânimos, seja a prova da nossa superioridade moral.

Houve uma guerra. Nós lutámos lá; nós morremos e matámos lá.

Para denunciarmos, para perdoarmos, mas para jamais esquecermos!

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